terça-feira, 25 de agosto de 2015

Anhanguera e a educação Fast Food


Daison Colzani

Em julho de 2014, foi anunciada a fusão dos grupos Kroton e Anhanguera, criando o maior grupo educacional do Brasil, com um capital aproximado de R$ 12 bi. A Kroton, em sua fusão, tinha mais de 60% dos alunos matriculados com contrato do Fies. Com a restrição imposta pelo Ministério da Educação, no fim de 2014, esse número reduziu para aproximadamente 56%, mas ainda assim a principal fonte de recursos é o Fies. 

Metodologia

A Anhanguera tem uma metodologia de ensino no mínimo curiosa. Mesmo seus cursos presenciais têm disciplinas à distância (EAD), as matérias são norteadas por um Programa do Livro Texto (PLT), delimitando o que o professor deverá transmitir na sala de aula. Na prática, o que deveria ser uma referência bibliográfica é, na verdade, um manual para o professor lecionar com o conteúdo desejado nos moldes da Anhanguera. Disciplinas como Sociologia, Filosofia, Economia, entre outras, ou não existem na grade ou têm um PLT estreito.

A situação é ainda pior com a prova unificada, organizada pela matriz e enviada a todas as unidades. Ela serve também para testar se o professor transmitiu os conhecimentos que a Anhanguera deseja.

Assim, o ambiente que deveria ser voltado ao desenvolvimento do conhecimento torna-se um mero processador de informações. Os alunos não são levados a pensar, mas a assimilar aquilo que a Anhanguera julga necessário ao mercado. Da mesma forma que Chaplin, em seu famoso filme “Tempos Modernos”, os alunos dessa faculdade são condicionados a apertar porcas sem qualquer reflexão, um trabalho meramente mecânico. O Ensino Superior torna-se uma mera repetição de informações. Esse método poderia ser chamado Fast Food, pois, assim como em uma franquia, o ensino vendido é o mesmo em qualquer cidade. Além disso, na foto, essa educação McDonald's é muito mais bonita do que na vida real.

Políticas públicas

Tudo isso só é possível porque as políticas públicas para expansão do Ensino Superior são praticamente nulas. Estamos diante de um quadro em que, até 2011, aproximadamente 73,7% das matrículas em graduação eram em instituições privadas, segundo dados do Censo da Educação. Em 2012, cerca de 4,5 milhões de jovens tiveram acesso ao Ensino Superior, enquanto outros 7,4 milhões que concluíram o Ensino Médio não acessaram faculdades ou universidades. 

Em 2015, a situação só piorou e as universidades públicas sofrem com fortes cortes, desvalorização dos servidores e sucateamento da estrutura. Enquanto isso, as instituições privadas noticiam seus lucros cada vez maiores, garantidos principalmente pelos programas do governo federal, como Fies e Prouni. O grupo Kroton/Anhanguera registrou um lucro de R$ 513,8 milhões no segundo trimestre, o que significa 79,6% de aumento em comparação ao mesmo período do ano passado. Alguma coisa está muito errada.

Por que não regulamentar o ensino pago? 

Nosso combate é por educação pública, gratuita e para todos. Não podemos aceitar que existam empresas privadas de ensino regulamentadas. Queremos o fim do vestibular e do ensino privado, queremos todos os jovens na universidade, independente da sua origem, etnia, orientação sexual ou qualquer outra particularidade que possa servir para diferenciar uma pessoa da outra. Chega de dividir as migalhas, chega de decidir quem serão os eleitos a acessar o Ensino Superior enquanto a maioria segue à margem, sem acesso. 

É verdade que o filho de pobre pode virar doutor hoje?

Pode até ser verdade, mas uma verdade muito restrita. O número de vagas não foi ampliado, apenas dividido. Se hoje a universidade não é um ambiente completamente elitizado também não é verdade afirmar que o acesso foi democratizado. Devemos aprofundar essa discussão, pois querem nos fazer crer que quem é contra as políticas afirmativas implementadas a partir do governo Lula é contrário à democratização do ensino. Nada mais falso! Queremos todos dentro da universidade, sem meias medidas, sem que a inclusão de alguns justifique a exclusão de tantos outros.

Organização

É por esses motivos que não podemos considerar normal esse tipo de educação Fast Food que a Kroton/Anhanguera e tantas outras privadas oferecem aos jovens. Para interromper essa lógica é preciso organização, é preciso que os estudantes e jovens que estão fora da universidade se organizem e combatam por uma sociedade em que o capital não seja controlado por uma minoria, mas seja um bem do povo. Somente com o fim do capital privado é que teremos educação pública, gratuita e para todos.

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