quinta-feira, 23 de julho de 2015

Por que reivindicar-se de esquerda?


Podemos por el Socialismo

A alternância no governo durante anos de administrações de direita e “esquerda” - que aplicavam uma política igual, uma política de benevolência aos ricos e poderosos e de ataques aos mais pobres e desfavorecidos - desvalorizou a dicotomia “esquerda-direita” na opinião geral.

Como poderia ser de outra maneira? 

Como representantes da “esquerda”, devemos nos referir aos dirigentes de partidos como o PSOE, o Partido Laborista britânico ou o Partido Socialista francês (que atualmente governa na França), que aplicaram e apoiaram, enquanto “oposição”, as políticas de recortes e de apoio aos resgates a bancos e a grandes empresas com dinheiro público – reduzindo ao mínimo os gastos de saúde, educação, entre outros. São estes partidos que apoiam, sem questionamentos, todas as aventuras reacionárias do imperialismo norte-americano no Oriente Médio, África e América Latina. Diante disso, é normal que exista desconfiança e ceticismo em relação ao rótulo de “esquerda”.

No entanto, devemos ver mais à frente. Se um sapato está apertado, não é por isso que devo chegar à conclusão que não preciso mais usar sapatos. Tento, portanto, procurar sapatos adequados. Da mesma maneira, estes dirigentes mencionados acima não têm o patrimônio de “esquerda” e, na verdade, são uma negação desse conceito – que, apesar de tudo, ainda ostenta um grande prestígio entre os oprimidos do mundo.

O uso político da palavra “esquerda” tem sua origem nos primórdios da Revolução Francesa, e fazia referência aos assentos que ocupavam, na Assembleia Nacional, os delegados das correntes mais radicais da revolução, diante das correntes moderadas e pró-monárquicas que se situavam do lado direito.

Desde então, Esquerda e Direita foram incorporadas ao vocabulário político geral e mundial. Durante certo tempo, “a esquerda” foi vinculada à defesa de posições progressistas, republicanas e democráticas, diferente da direita que se apresentava como a defensora da ordem estabelecida e das classes privilegiadas.

Com a entrada da classe trabalhadora no cenário social e a formação de poderosas organizações políticas trabalhadoras do século XIX em diante, o conceito de “esquerda” evoluiu até adquirir um conteúdo de classe, paralelo ao conceito de “direita” com o qual os partidos formados por grandes empresas em cada país se sentiram identificados. Entre estes dois polos, os chamados partidos de “centro” foram impulsados por políticos profissionais que exploravam as preocupações políticas das diferentes camadas da pequena burguesia em suas variantes “centro-esquerda” e “centro-direita”, para fazer carreira, negociar cargos e ministérios com as alas de esquerda e direita do espectro político.

A identificação da “esquerda” com a luta política dos trabalhadores foi – e continua sendo – uma importante conquista política, ao reafirmar uma separação de classe com partidos de “direita”, que defendem o interesse da burguesia, dos ricos.

Uma das grandes contribuições do PODEMOS ao debate político atual foi reivindicar o papel dos sentimentos e da emoção na luta política. De fato, ninguém pode se abster da força emocional e sentimental que o termo “esquerda” representa para milhões de trabalhadores e jovens no Estado espanhol e no âmbito internacional. Precisamente, o termo político “esquerda” evoca sentimentos de “justiça”, de “solidariedade” de “avanços sociais”, de “luta”, de “igualdade”. Da mesma forma, o termo “direita” promove, em nossos companheiros, ideias associadas à “injustiça”, “desigualdade”, “exploração”, “ditadura”, aos “ricos” e aos “opressores”.

Já que o termo “direita” fomenta uma clara repugnância na consciência geral da classe trabalhadora e dos demais setores oprimidos da sociedade, não é por acaso que desde há décadas a burguesia e seus partidos realizam inúmeras tentativas de denegrir o termo “esquerda”.

Sendo assim, não foi coincidência quando os herdeiros mais inteligentes do regime franquista, em 1977, denominaram seu partido como “União de Centro Democrático”, com o desejo de se situarem no meio do caminho entre “esquerda” e “direita” para tentar apagar as sujas pegadas da sua procedência.

Por que fazem isso? Justamente para introduzir a ideia reacionária de conciliação de classes, de que existem interesses comuns entre os trabalhadores e seus patrões, entre os ricos e os pobres; para difundir uma falsa ideia de “unidade nacional”, de que “todos somos espanhóis” - ou, no caso, “bascos”, “catalães” ou “gallegos” - enquanto a exploração e as injustiças sociais continuam existindo.

Com isso, pretendem deixar politicamente desarmados os trabalhadores e os demais setores populares oprimidos, com ideias que dificultam uma visão nítida da origem de seus problemas, desviando-a para uma “má gestão” dos políticos, ou que “neste país existem muitos sem vergonhas”. No lugar de fazer que o trabalhador enxergue sua realidade, pretendem debilitar sua consciência política e orientar seu olhar e o dos lutadores populares para o campo da “moral”, e não para as estruturas econômicas da sociedade e das relações de propriedade.

Não é por acaso que, quando convém, os dirigentes do PSOE se proclamam enfaticamente como “esquerda” para tentar recuperar certa credibilidade. Outra prova desta atração do termo “esquerda” está na Grécia. SYRIZA, que se converteu no primeiro partido do país e que constitui uma referência para todos os companheiros do PODEMOS, é um acrônimo que significa “Coalizão da Esquerda Radical”.

Também não é casualidade que o PODEMOS se integrou ao Grupo Unitário da Esquerda Europeia, no Parlamento Europeu. Isso nos indica, claramente, em qual lugar devemos nos posicionar para encontrar nossos aliados políticos naturais, na Europa e no Estado espanhol, e a grande influência e significado político que o conceito de “esquerda” ainda ostenta.

Portanto, o problema da “esquerda” espanhola em seus representantes tradicionais (PSOE e PCE-IU) não tem relação com o nome ou com sua definição, senão com a política e o programa defendidos e praticados desde a queda da ditadura, que frustraram e distanciaram milhões de pessoas que, em outros momentos, os buscaram como alternativa para transformar a sociedade.

A principal questão é reivindicar o termo “esquerda”, preenchê-lo com um verdadeiro conteúdo político de transformação social, ou seja: socialista e revolucionário.

É por isso que nós, os participantes do Círculo Setorial PODEMOS SOCIALISMO, nos consideramos aberta e orgulhosamente de esquerda, levantando, junto à bandeira roxa do PODEMOS, a bandeira vermelha da EMANCIPAÇÃO SOCIAL DA CLASSE TRABALHADORA.

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