sexta-feira, 31 de julho de 2015

Apropriação cultural e marxismo



                      


Caio Acioli

Apropriação cultural é o que os racialistas, pan-africanistas e outros segmentos pós-modernos do movimento negro em geral inventaram para terem uso exclusivo de roupas, "cabelos e acessórios" (sim entre aspas).

É necessário expor essa ideia como divisionista e quinta-coluna dentro da esquerda, considerando que ela é um dos elementos que o pós-modernismo tem em comum com o fascismo (que é a ideia de querer mandar nas vestimentas dos outros).

Os mesmos que propagam essa ideia são os que atacaram Mauro Iasi no debate na UERJ em defesa do contra-revolucionário pan-africanista Carlos Moore, que, na ocasião, alegou que prefere Barack Obama a Fidel Castro, porque o "Obama é preto e representa os negros", pouco importando se a comunidade afro-americana continua numa situação pior do que estava na época de Bush e anteriores e pouco importando os crimes que esse imperador da burguesia já cometeu contra vários outros povos oprimidos da humanidade.

“De acordo com sociólogos e especialistas em estudos das camadas populares na América do Norte, os índices sociais - que incluem emprego, saúde e educação - entre os afrodescendentes norte-americanos são os piores em 25 anos. Por exemplo, um homem negro que não concluiu os estudos tem mais chances de ir para prisão do que conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Uma criança negra tem hoje menos chances de ser criada pelos seus pais que um filho de escravos no século XIX. E o dado mais assombroso: há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850, de acordo com estudo da socióloga da Universidade de Ohio, Michelle Alexander.”

Essa é a prova de que o fato de o presidente ser negro nada interfere na melhoria de vida dos negros, como no caso de Obama que, apesar de negro, não está do lado destes negros oprimidos, mas que, na verdade, coloca-se contra estes, mesmo sendo negro.

Outro ponto que essa categoria de pós-modernos tem em comum com o fascismo é a defesa dos relacionamentos e casamentos mono-raciais, muito similares a supremacistas-brancos que pregam que os homens brancos podem "se divertir" com mulheres negras, mas namorar e casar apenas com brancas.
Outro ponto que deixa bem claro o anti-comunismo desses esquerdistas é que eles negam o marxismo como teoria revolucionária, alegando que se trata de uma "teoria branca e eurocêntrica"... Bem, quem diz isso são as mesmas pessoas que dizem pretender libertar os negros de todo mundo, mas eu não faço ideia de como eles vão fazer isso sem uma teoria revolucionária (leia-se: marxismo)... Sem uma teoria que de fato confronte a raiz de todas as opressões, e, portanto, a raiz do racismo. Uma teoria revolucionária que ataque os problemas do racismo não apenas em sua superfície, mas também eu seu princípio formador, que é a sociedade de classes.

Até hoje, quem mais participou da emancipação da população negra foram os lutadores marxistas (negros e não negros), seja no caso da URSS criminalizando o racismo e dando suporte às guerras de libertação nacionais africanas, seja no lendário Partido Pantera Negra para Autodefesa, nos EUA. Enquanto essa condição não mudar, continuarei sendo marxista e esse meu texto seguirá tendo sua relevância.

A Apropriação Cultural e os Marxistas Negros

Bem, antes de tudo, vamos deixar bem claro que qualquer negro que seja marxista não está preocupado com a forma como determinados grupos sociais estão se apropriando de símbolos atribuídos aos negros, seja com o penteado dread ou turbantes. Se há negros marxistas que defendem a noção de “apropriação”, é porque não estão se baseando na teoria filosófica e científica materialista.

Vamos refutar duas frases proferidas como expressão de racismo e que supostamente expressam a dinâmica real do racismo atual:

"Branco usando dread é bonito e estiloso, preto usando dread é mendigo e sujo"
"Branca usando turbante é moderna e mente aberta, preta usando dread é macumbeira endemoniada"

Derrubando essas duas mentiras brabas, já se confronta boa parte do que é classificado como "apropriação cultural", e podemos partir pra ÚNICA forma de apropriação cultural que existe de verdade, que é a apropriação de TODAS AS CULTURAS DO MUNDO pelo CAPITALISMO, com o objetivo de serem usadas para fins comerciais, sempre que for interessante para a burguesia, de acordo com cada momento histórico.

Então vamos para o primeiro exemplo, a falácia dos dreads. Essa questão nos parece simples e óbvia. Parece-nos que essa tendência quer usar a lente racialista para tudo e, por isso, enxerga racismo em tudo, o que muitas vezes acaba confundindo e até mesmo prejudicando um trabalho mais radical de combate ao racismo.

Com um olhar mais atento à realidade, perceberemos que desde que os dreads começaram a ser mais usados no Brasil, apesar de a indústria da moda TENTAR fazê-los virarem moda, falharam miseravelmente, porque nenhum branco nunca foi visto como “mais estiloso” que um negro por usar unicamente dreads. As pessoas que eventualmente acham os dreads bonitos, muito provavelmente vão achar bonito tanto na cabeça de um negro quanto na cabeça de um branco. E as pessoas que acham feio, podem até xingar esse negro no meio da rua, assim como xingariam um usuário branco, a diferença é que o usuário negro poderá ser xingado com termo racistas, enquanto o branco não vai ser xingado com termos racistas.

O problema mesmo está no racismo da sociedade e seus preconceitos contra o diferente, e não na “apropriação” que o branco fez. Até mesmo porque a “apropriação” dele não o salvaria de ser xingado em virtude de usar seus dreads. Outras coisas que refutam a falácia dos “brancos roubarem um estilo de cabelos dos negros”, é que nós conhecemos gente branca que usa dread e, devido a isso, as dificuldades de arrumar emprego aumentam consideravelmente se comparadas a quando elas não usavam. O mesmo acontece com um negro usuário de dread, a diferença é que esse terá ainda mais dificuldade de conseguir o emprego caso esteja disputando com o usuário branco, por exemplo, mas isso acontecerá porque ele vai ter que enfrentar o preconceito contra os dreads somado ao RACISMO.

Pronto. E por aí cai a falácia de que “brancos usando dreads são bem-vistos”. Eles não são bem vistos, eles também são mal vistos, só que a cor deles nesse caso expressa um atributo a menos de ataque, fazendo com que a discriminação contra eles seja menor.

Mais uma questão é que outros povos começaram a usar os dreads juntos ou ainda antes dos negros, o que pode até causar mal estar entre aqueles que não aceitam esse uso, como sendo uma apropriação indevida.

Então vamos para o segundo exemplo, os turbantes. A análise materialista a ser utilizada no caso do turbante é bem igual à utilizada no caso dos dreads, só mudamos o objeto de análise. Nesse caso, os racialistas alegam que “brancas usando turbante são vistas como mulheres com muito estilo”.

Será que essas pessoas saem pra rua ou eles ficam o dia inteiro dentro de casa bolando essas teorias e essas ideias? Basta sair na rua que não será difícil ver uma mulher branca sendo “xingada” de coisas como “demônia” “macumbeira”, tal como uma mulher negra receberia o mesmo tipo de inferências, com o objetivo de discriminar e subjugar.

Não podemos afirmar que uma mulher branca será bem vista por usar turbante, pelo motivo de ser branca. A possibilidade de ser discriminada, do ponto de vista cultural, será a mesma de uma negra.

Como no exemplo dos dreads, a negra usando turbante tem tantas possibilidades de receber uma ofensa quanto a branca, só que pra ser mais preciso o turbante é ainda mais discriminado que o dread, por alguns outros motivos.

Os racialistas alegam que ”A indústria da moda está vendendo o turbante como um produto”. Eu tomo a liberdade de modificar essa frase para colocá-la de acordo com a realidade: “A indústria da moda está TENTANDO vender o turbante como um produto”. Pronto, agora sim. E se eles estão tentando ou tentaram fazer isso, eles estão falhando ou JÁ FALHARAM, porque não podemos considerar NA MODA uma peça que quem usa ela é ofendida tão só por usar essa peça. Assim, esse conceito de MODA deve ser repensado. O fato é que o turbante é ainda mais odiado pela sociedade que os dreads.

E quanto às origens do turbante, sabe-se bem que quem iniciou o seu uso foram os povos árabes, não os povos negros.

Agora vamos falar sobre a “apropriação cultural” real que o capitalismo faz com TODAS AS CULTURAS DO MUNDO.

O motivo de eu colocar “apropriação cultural” entre aspas, nesse caso, é porque esse termo foi utilizado pelos pós-modernos e nós, marxistas, precisamos inventar outro, para não haver confusão. Mas, por falta de tempo, deixaremos para fazer uma distinção mais detalhada e cunhar outro conceito em outra oportunidade, e, por enquanto, deixaremos a expressão entre aspas mesmo.

Para esse caso real, vamos utilizar o gênero musical que eu escuto desde quando me entendo por gente e tenho muita, mais muita afinidade e conhecimento, que é o RAP.

O RAP se iniciou por volta de 1970, uns dizem que ele surgiu na Jamaica e com o tempo foi “exportado” pra Nova York. Outros dizem que ele foi inventado em NY mesmo, mas tudo bem, isso não importa agora.

O RAP sempre foi utilizado pelos negros norte-americanos para denunciar todas as opressões que sofriam na sociedade burguesa norte-americana. Com o tempo, ele se fundiu com os outros 3 elementos (DJ – Break Dance – Grafiti) e os 4 juntos formaram a cultura Hip-Hop, expressão artística legítima e fundamental da periferia contra a opressão capitalista. Talvez a mais importante produção cultural combatente do capitalismo, apesar de incompleta e insuficiente.

Com o passar dos tempos, lá pra 1992-1993, o capitalismo já começou a tentar se apropriar do Hip-Hop, para minar essa cultura por dentro e torná-la inofensiva ao capitalismo. Porém suas tentativas não obtiveram um sucesso grande, pelo menos não se compararmos com o que eles conseguiram no início dos anos 2000, quando eles finalmente conseguiram prostituir, quase por completo, a cultura Hip-Hop, injetando na indústria inúmeros artistas comerciais, sem talento algum, e fazendo esses grupos “explodirem nas paradas”, como eles mesmos dizem.

Ainda bem que com o passar do tempo esses artistas começaram a cair em descrédito, poucos anos após aparecerem repentinamente na mídia, enquanto o rap underground dos EUA continua forte e resistindo bravamente a essas investidas.

Esse é um bom exemplo de apropriação cultural. Uma coisa muito importante de se notar é que quase todos esses artistas comerciais eram NEGROS, o que facilitava para que indústria inserisse a ideologia burguesa na cabeça dos negros norte-americanos. Logo, enganam-se aqueles que afirmam que algo só ganha grande repercussão quando seus sujeitos são pessoas de pele branca. No caso do RAP, ao menos, esta não é uma verdade, apesar de muitos tentarem fazer essa afirmação.

Pra encerrar gostaria de deixar bem claro que nenhum marxista irá querer criar exclusividade étnico-racial para uso de roupas, apreciação e criação de obras artísticas visuais e musicais. Isso nós deixamos para as confusões dos racialistas, com suas lentes embaçadas, que só conseguem ver a história através do prisma da raça. O desejo dos marxistas é que um dia TODOS OS POVOS do mundo possam fazer um livre intercâmbio cultural, uma verdadeira UNIVERSALIZAÇÃO DA CULTURA, livre de influências e imposições imperialistas.


Caio é um jovem, militante do movimento negro. E este texto foi enviado por ele como sua contribuição para o debate.

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