sábado, 25 de outubro de 2014

Rússia Antes da Revolução

No mês da Revolução Russa, publicamos um trecho do livro O Partido Bolchevique de Pierre Broué.

Pierre Broué foi membro da IV Internacional e incansável militante para o restabelecimento da verdade a respeito de Trostsky e dos rumos da Revolução Russa. Seu livro sobre o Partido Bolchevique é uma importante obra e leitura obrigatória para os militantes de esquerda.






Durante os últimos anos do século XIX e os primeiros do XX, para o pequeno burguês francês, a Rússia era o paraíso dos capitais, “os empréstimos russos”, garantidos pelo poder do autocrata, pareciam inversões tão seguras para os pequenos poupadores como para os bancos de negócios. Na atualidade, sabemos até que ponto se incorria nisso em um grave erro de apreciação, que só dissimulava parcialmente a posterior denúncia da “má fé” dos bolcheviques que, certamente, resultaram em maus pagadores. De outro lado a história conformista e a grande imprensa se tem conformado desde então em sublinhar episodicamente os vícios e debilidades da monarquia czarista: a evocação da sombra de Rasputin, o padre curandeiro, o bêbado tarado, a “besta sensual e astuta”, serve assim para explicar a derrubada do “colosso de pés de barro”, o que sempre se referem os manuais de história. Estes pontos de vista tão tradicionais quanto rotineiros refletem, não obstante, à sua maneira, o verdadeiro estado em que se encontrava a Rússia antes da Revolução, assim como os traços profundamente contraditórios que a caracterizavam: Era um país imenso, povoado por camponeses primitivos – estes mujiks tão parecidos aos vilões de nossa Idade Média – mas era também o campo de expansão de um capitalismo moderno e americanizado, que utilizava um proletariado muito concentrado nas grandes fábricas. No espaço russo, as grandes propriedades da nobreza e as comunidades camponesas coexistiam com os monopólios industriais e financeiros. A este país de analfabetos pertencia também uma intelligensia aberta a todas as correntes de pensamento e que tem dado ao mundo alguns de seus maiores escritores. No inicio do século XX, a Rússia era, de outro lado, o último reduto da autocracia, convertendo-se posteriormente no primeiro campo de batalha vitorioso de uma revolução operária.



Outro lugar comum constituía a afirmação de que a Rússia, intermediária entre Europa e Ásia no mapa, também o é pelo caráter de todas as suas estruturas. De fato, sua dupla natureza européia e asiática se traduz não só na história, mas na própria vida social russa. A civilização russa, nascida nos limites do bosque da zona temperada, tem visto estender-se ante ela tempos e espaços quase infinitos. Até o século XX a chave de sua história parecia ser a lentidão de sua evolução: explica-se assim o atraso de sua economia, sua primitiva estrutura social e a mediocridade de seu nível cultural. No século XIX é um mundo imenso, tão rico em recursos como parado no tempo, em que, durante a guerra da Criméia, se coloca pela primeira vez o descompasso com a civilização ocidental: o czar Alexandre II pode então avaliar as debilidades de seu império e compreender que a mera inércia é incapaz de proporcionar as gloriosas vitórias que sonha. Neste sentido, a evolução da Rússia durante o último século apenas difere da dos países atrasados, coloniais e semicoloniais ou “subdesenvolvidos” como são chamados na atualidade. No inicio de nosso século, enfrenta o mesmo problema que preocupa em nossos dias a maioria dos estados africanos, asiáticos ou sul-americanos: a saber, que a assimilação por sociedades mais avançadas provoca o desenvolvimento simultâneo de fenômenos cuja sucessão tem sido constatada anteriormente em diferentes circunstâncias históricas e que, por uma série de combinações múltiplas, suscita um ritmo de desenvolvimento e inter-relações altamente originais. Esta é a lei que os marxistas – os únicos que deram uma explicação científica a este processo – chamaram de “desenvolvimento combinado”, que Trotsky definiu como a “combinação das diferentes etapas do caminho, a confusão de distintas fases, o amálgama das estruturas arcaicas com as mais modernas e que, em definitivo, constitui a única explicação séria da Revolução Russa. O antigo regime cedeu assim em poucos meses seu lugar a um partido operário e socialista; este último tinha sabido encabeçar uma revolução que, como afirma de novo Trotsky, associava “a guerra camponesa, movimento característico do alvorecer do desenvolvimento burguês, e a revolta proletária, o movimento que assinala o ocaso da sociedade burguesa”.




Uma economía atrasada

A Rússia, até o final do século 19 – seu primeiro censo data de 1897 – conta com 129 milhões de habitantes. Em 1914, tem mais de 160. A taxa de natalidade é de 48 por mil: durante tal período sua população aumenta em mais de dois milhões por ano.

87 %. dos russos vivem no campo e 81,5% é composto de agricultores. Quando a população aumenta, as parcelas se fazem cada vez mais pequenas: em 1900 sua superfície média é inferior em uns 55% à de 1861. O espaço cultivável é, pois, tão exíguo como na Europa. Por acréscimo, tal espaço é cultivado tão extensamente como na América do Norte e com métodos muito mais rudimentares. O camponês russo utiliza técnicas agrícolas primitivas, em nenhuma parte tendo superado a rotação trienal de cultivo, privando-se desta forma de um espaço que poderia dispor; além disso, a pressão demográfica lhe obriga gradualmente a praticar um cultivo contínuo que, mesmo a curto prazo, resulta completamente devastador. Sua pobreza e a urgência das necessidades que o induziram, no geral, a renunciar à pecuária, o privam ao mesmo tempo do esterco e da força de trabalho animal. Suas ferramentas, sobretudo o arado, são de madeira. Os rendimentos agrícolas são baixíssimos, equivalem à quarta parte dos rendimentos ingleses e à metade dos franceses; são sensivelmente comparáveis aos da agricultura indiana. Entre 1861 e 1900, diminuem uma vez mais entre 60 e 80 aumentando ininterruptamente o número de camponeses que não possuem montarias. Durante o inverno de 1891-92, trinta milhões de indivíduos se vem afetados pela fome, sucumbindo 100.000 pessoas numa área de 500.000 quilômetros quadrados. A Rússia teria que importar então o trigo necessário para alimentar uma população cada vez maior. Sem dúvida, a vontade de seus governantes pretende fazer dela um país exportador. Os cereais, cuja metade da produção está constituída de trigo, representam, junto com os produtos alimentícios, 50% de suas exportações, e a maior parte do resto, 36%, está constituída de matérias primas. As mesmas razões que fazem da Rússia um país de economia agrícola atrasada, a submetem a uma forte dependência do mercado mundial.

No campo industrial, este fenômeno se apresenta com idêntica nitidez. A terça parte das importações russas está integrada por produtos manufaturados que provêm da indústria ocidental. A indústria russa, que nasceu no século 18 do empenho de “ocidentalização” dos czares, começou em seguida a estancar como conseqüência da origem servil da mão de obra. A “razão de estado” lhe deu um novo impulso no século 19. As reformas sociais de Alexandre II lhe abriram caminho: liberada da cadeia da servidão, a mão de obra camponesa pode, a partir de então, afluir para as empresas industriais, onde o rendimento de trabalho “livre” é infinitamente superior ao do trabalho “servil”. Apesar da debilidade do mercado interior, que não consegue compensar um forte protecionismo, se beneficia da contribuição de técnicos e capitais estrangeiros que exigem, durante a última metade do século, a construção de vias de comunicação. Depois de 1910, se beneficia de pedidos massivos de armamento e, até certo ponto, da extensão do mercado interior que suscita o desenvolvimento das cidades e da vida urbana. Em 1912, a indústria russa produz quatro milhões de toneladas de fundição, nove milhões de toneladas de petróleo, vinte mil toneladas de cobre e as nove décimas partes do total mundial de platina. De fato, esta indústria, desejada, alentada e, mesmo em alguns aspectos, criada pelo estado czarista, escapa por completo a seu controle: são sociedades inglesas as que manejam a extração de platina e capitais franceses e belgas os que dominam (com mais de 50%) o conjunto das inversões efetuadas na indústria de Donetz; de outro lado, a eletrotécnica se encontra nas mãos de capitais alemãs. Em tais condições, o comércio exterior se encontra forçosamente subordinado ao mercado mundial, dependendo em alto grau e diretamente dos capitalistas e intermediários estrangeiros. Como afirma o professor Portal, “o capitalismo internacional em conjunto convertia a Rússia, forçando um pouco os prazos, em uma espécie de colônia econômica”.

Uma estrutura social primitiva

A sociedade russa anterior à revolução é constituída fundamentalmente pelos mujiks. Alexandre II os libertou da servidão destinando-lhes parte das terras que cultivavam e que agora devem comprar: a comunidade camponesa, o Mir, deve supervisionar a periódica redistribuição delas para que fique garantida sua igualdade. Sem dúvida, a pressão demográfica diminui sua extensão. O imposto que se deve pagar ao Czar e a anuidade necessária para comprar a parcela pesam intensamente sobre a exploração agrária. Nestas condições se encontram aproximadamente cem milhões de camponeses, que repartem 60% da superfície cultivável, pertencendo o resto à coroa, um pequeno setor da burguesia urbana e, em sua maior parte, à nobreza camponesa. Após ter defendido o mír como instituição que garantia o conservadorismo do mujik, o governo czarista decide “fragmentá-lo” com as reformas de Stolypin: três milhões e meio de camponeses eram proprietários em 1906, em 1913 são já cinco milhões e suas terras ocupam um sexto da superfície total. Como a população não deixou de aumentar, a fome de terra não diminuiu. Dada a situação da técnica, se necessitava de seis a doze hectares para a estrita manutenção de uma família camponesa. Sem dúvida, 15% dos camponeses carecem por completo de terra, 20% possui menos de doze hectares e só 35% possui terreno suficiente para assegurar sua subsistência. Tendo em conta o pagamento devido a usurários e más colheitas, de 40 a 50% das famílias camponesas tem ingressos inferiores ao que se pode entender como “mínimo vital”. Por acréscimo, se endividam por anos ao se verem obrigados a vender sua colheita aos preços mais baixos, dada sua falta de reservas e dependem continuamente de um ano mal ou de um credor mais exigente. A minoria dos camponeses acomodados, os Kulaks, não representa mais de 12% do total. Por último, 140.000 famílias nobres possuem a quarta parte das terras. No inicio do século 20, se observa uma clara diminuição à diminuição das propriedades nobiliárias que, na maioria dos casos, resulta sempre em beneficio do Kulak, intermediário entre o proprietário nobre e os parceiros e diaristas que contrata.

A imensa maioria, pelo menos 80% dos camponeses é analfabeta, e a influência dos sacerdotes rurais, de popes medíocres, ignorantes e às vezes desonestos, se faz notar na sobrevivência do obscurantismo. Há séculos, o mujik vive à beira da fome, submergido numa resignação supersticiosa: inclina suas costas humildemente e se sente infinitamente pequeno ante a onipotência de Deus e do Czar. Não obstante, muitas vezes, o medo e a humilhação se transformam em cólera, de forma que a história agrária russa constitui uma sucessão de revoltas camponesas breves mais selvagens, todos eles reprimidos ferozmente. Em princípios do século, a necessidade de terra cresce ao mesmo ritmo que o número de bocas para alimentar. O mujik pode ignorar as propriedades da aristocracia tanto menos quanto que se vê obrigado a trabalhar nelas: sua luta pela terra será, portanto, um dos mais poderosos motores da revolução de 1917.

As estatísticas que permitem avaliar o número de operários são muito ambíguas, dado que uma grande massa de homens, talvez de três milhões, oscila permanentemente entre o trabalho industrial e o camponês. Se trata de uma verdadeira mão de obra flutuante, que passa anos, ou as vezes somente meses ou semanas, trabalhando na cidade, sem abandonar por isso o âmbito familiar e social camponês. Os operários propriamente ditos são aproximadamente um milhão e meio em 1900 e três milhões em 1912. Salvo, talvez, em São Petersburgo, são muito escassos os que não são filhos de camponeses ou não têm parentes próximos no campo que devem ajudar ou de quem recebem algum socorro quando estão parados. No geral se assemelham a eles por seu nivel cultural e por sua mentalidade: são analfabetos e supersticiosos e estão submetidos a condições de trabalho muito duras. Na prática, não se aplicam as leis que limitam a duração da jornada de trabalho a onze horas e meia em 1897 e a dez horas em 1906. Os salários, baixíssimos são muito inferiores aos que se pagam na Europa ou na América. Costumam se abonarem-se freqüentemente em espécie, ao menos em parte, proporcionando este sistema ao patrão benefícios substanciais e o mesmo ocorre com a generalização das incômodas multas que castigam as faltas à disciplina de trabalho e diminuem os salários na média de 30 ou 40 por 100.Sem dúvida, tais proporções variam muito de uma região à outra, e mesmo de uma cidade a outra.

Os operários formam, não obstante, uma força muito mais perigosa que a infinitamente mais numerosa massa camponesa. Estão muito unidos, já que os salários são uniformemente baixos e escasseiam os privilegiados: agrupam-se em grandes fábricas: em 1911, 54 em 100 operários russos trabalham em fábricas que utilizam mais de 500 assalariados, enquanto que a cifra correspondente nos Estados Unidos é de 31 em 100; 40 em 100 se encontram em fábricas que utilizam de 50 a 500 assalariados; só uma percentagem inferior a 12 em 100 trabalha nas fábricas de menos de 50 operários. Por oposição ao camponês, fechado num âmbito limitado, os operários têm mobilidade, passam de uma fábrica, de uma cidade ou de um ofício a outro e contam com um horizonte mais amplo. Por sua concentração, suas condições de trabalho e de vida, pela modernidade das máquinas que utiliza e por sua atividade social, a classe operária constitui um proletariado moderno cuja espontaneidade lhe conduz mais facilmente à revolta e à luta violenta que à negociação ou ao regateio, muito mais frustrado mas também muito mais combativo que o dos países da Europa Ocidental, fortemente vinculado ao mundo rural e muito solidário ainda, por carecer de uma autêntica “aristocracia operária” de especialistas.

A oligarquia financeira está constituída por poucas famílias que controlam a atividade industrial. A crise de 1901-1903 acelerou o processo de concentração, pondo a industria em mãos dos monopólios. Por exemplo, na metalurgia, a sociedade Prodamet, fundada em 1903 e que se converteu num verdadeiro trust do aço, que controla as trinta empresas mais importantes, 70% do capital e mais de 80% da produção, utilizando 33% da mão de obra. Nos últimos anos do pré-guerra, tal sociedade é presidida por Putilov, que se acha igualmente à frente do conselho de administração do Banco Russo-Asiático, dominado por capitais franceses (60%); se trata de uma personalidade fortemente vinculada ao grupo Schneider e que mantêm estreitas relações comerciais com os Krupp. Nas empresas têxteis, os capitalistas russos contam no geral com a maioria; sem dúvida, na maioria dos casos, as empresas industriais estão controladas pelos bancos e estes, por sua vez, pelos capitais estrangeiros. Estes últimos constituem 42,6% dos dezoito maiores bancos: o “Credit Lyonnais”, o Banco Alemão do comércio da indústria e a “Societé Generále” belga são os verdadeiros diretores do crédito e, por conseguinte, da indústria russa.

Não existe, portanto, uma verdadeira burguesia russa, mas – e é uma característica comum a todos os países atrasados – uma oligarquia que integra, em idêntica dependência do imperialismo estrangeiro, em vez de capitalistas e proprietários; estes mesmos se encontram, por sua vez, na cúpula do aparato estatal. Em 1906, vinte dignitários do Conselho do Império possuem 176.000 hectares de terras cultiváveis, isto é, uma média de 8.000 por família. Como afirma o professor Portal, “a alta administração recrutava-se, em conjunto, entre a aristocracia camponesa”. Assim mesmo, os trabalhos de Liáschenko têm mostrado a penetração existente entre as mais altas esferas da burocracia e aristocracia, de um lado, e das sociedades industriais e bancárias de outro: os grandes duques são acionistas das ferrovias e os ministros e altos dignitários passam ao serviço dos bancos quando abandonam as tarefas estatais, se já não se dedicam a trabalhar para eles desde seus cargos oficiais. Os traços mais característicos da burguesia russa são, portanto, sua pequenez, sua conexão com a aristocracia camponesa e sua debilidade econômica em relação à burguesia mundial que depende. Entre a oligarquia e a massa de operários e camponeses se intercala um verdadeiro mosaico de classes médias; pequeno-burgueses das cidades, Kulaks camponeses, a intelligentsia das profissões liberais, do ensino e, até certo ponto, das camadas inferiores da burocracia. Estes setores sociais, privilegiados em relação à massa por suas possibilidades de acesso à cultura, mas separados da decisão política pela autocracia, sentem a influência de diversas correntes e se acham à mercê de influxos contraditórios sem poder aspirar, por falta de base, a um papel independente, ante o que, por acréscimo, tendem a retroceder, dadas as suas contradições.



A autocracia

O Estado czarista é também produto do desenvolvimento combinado e resultado da lenta evolução russa. Manteve-se frente a uma Europa em plena expansão econômica, à base de monopolizar a maior parte do patrimônio público, vigiando atentamente as classes possuidoras, cuja formação regulamentou e as quais governa mediante uma espécie de despotismo oriental. No século 17, subjuga a nobreza oferecendo em contrapartida a classe camponesa acorrentada pela instituição servil. O estado é o primeiro a fomentar a indústria, iniciando a modernização com as reformas de 1861 e abrindo caminho, com a abolição da servidão, às novas transformações sociais e econômicas. Ao dispor de uma rígida hierarquia de funcionários tão submissos quanto arrogantes e tão servis quanto corruptos assim como de uma moderna polícia, muito pelos métodos de vigilância, suborno e provocação parece ostentar uma solidez a toda prova e constituir uma inexpugnável muralha contra toda subversão, e mesmo contra toda liberalização. Sem dúvida, até o fim do século 19 se acentua a contradição entre as necessidades do desenvolvimento econômico, a expansão industrial, a livre concorrência e as exigências que pleiteia o crescimento do mercado interior, de um lado, e as formas políticas que obstaculizam qualquer controle sobre o governo por parte daqueles que podiam considera-lo indispensável para sua atividade econômica. A autocracia czarista exerce uma verdadeira tutela sobre a vida econômica e social do país, justificando seus métodos de coerção com uma ideologia paternalista baseada na graça de Deus. Por exemplo, uma circular de 1897 a propósito da inspeção trabalhista ameaçava com sanções aqueles diretores de fábrica que satisfizeram as reivindicações dos grevistas. Convencido do caráter sagrado, não só de suas funções, mas do conjunto da estrutura social, o czar Nicolau II crê realizar sua missão divina ao proibir a seus súditos todo tipo de iniciativa, sem esperar deles outra coisa que não fosse a submissão à ordem estabelecida; frente ao estouro revolucionário, se revelará impotente e indeciso. Após criar um brilhante paralelismo entre 1917 e 1789, e entre Luis XVI e Nicolau II, Trotsky disse referindo-se a este último: “Seus infortúnios vinham de uma contradição entre os velhos pontos de vista que havia herdado de seus antepassados e as novas contradições históricas em que se achava colocado”.

As forças políticas

De fato, o czar e seus partidários, a Centúria Negra, que organizava as matanças de judeus, assim como sua policia e seus funcionários, podiam, no pior dos casos, ganhar tempo com a repressão, com o sistemático recurso à divisão das forças hostis, com a “russificação” das populações não russas e com a utilização do chauvinismo russo. A necessidade de terra dos camponeses os empurravam inexoravelmente até às propriedades da nobreza, ainda que nem sequer estas tivessem bastado para satisfaze-la. A ação operária chocava em suas reivindicações, mesmo nas mais insignificantes, com o poder do czar autocrata, bastião dos capitalistas e guardião da ordem. Uma “modernização” que tivesse colocado a sociedade russa na mesma linha do modelo ocidental teria exigido grandes decênios de diferenciação social no meio rural assim como a criação de um amplo mercado interno que, para sua realização teria exigido quando menos a desaparição das propriedades nobiliárias e a supressão das cargas que pesavam sobre os camponeses; tal modernização teria suposto além disso um ritmo de industrialização que a própria debilidade do mercado interior teria feito insustentável e que, de outro lado, não interessava aos capitais estrangeiros predominantes. A pesar do exemplo prussiano, a modernização da agricultura parecia impossível se não fosse acompanhada da industrialização. O imperialismo e a busca de saídas externas teriam podido representar desta vez o papel de diversão e de válvula de escape que alguns lhe designavam; sem dúvida, num mundo desigualmente desenvolvido, tais ambições chocavam com fortes competições exteriores – e o demonstrou a absurda guerra contra o Japão – que, de fato, aumentavam os perigos e comoção no interior.

Só assim se pode compreender a extrema debilidade dos liberais russos. O movimento liberal, nascido no seio dos zemstvos ou assembléias de distrito as quais acudiam os personagens notáveis, não tinha nem podia ter senão um programa político de limitação do absolutismo monárquico e de adaptação às novas condições econômicas à mercê da associação de responsabilidades políticas com setores mais amplos de proprietários. O partido constitucional democrata KD, chamado “cadete”, nascido oficialmente em 1905 e cujo porta-voz e teórico é o historiador Miliukov, conta com uma evolução pacífica ao estilo ocidental como conseqüência da liberalização do regime. Permanece alheio e em grande medida hostil às reivindicações mais concretas e imediatas das massas camponesas e dos operários, a quem só preocupa-se com a luta cotidiana contra uma patronal respaldada pelo estado. Seriamente ameaçado pelo “Quarto estamento”, este “Estado Raso” renunciará à luta, a partir das primeiras concessões da autocracia em 1905, para não desempenhar o papel de aprendiz de feiticeiro: queira ou não, se vê obrigado a se aliar com a oligarquia para fazer frente à ameaça comum que supõe a ação camponesa e operária. Os populistas ou narodniki,esperaram pacientemente, tentando preparar a revolta camponesa que pareciam pressagiar as lutas que se levavam a cabo desde séculos, assim como a própria massa dos mujiks. Os populistas eram conscientes tanto das particularidades nacionais como das tradições e, desejosos de permanecerem fiéis ao espírito popular em sua tentativa de criar um mundo mais justo e mais fraternal, acreditaram ver no mir e nas práticas comunais um sinal da predestinação do povo russo, o ponto de partida e a base possível de um socialismo do tipo agrário. Sem dúvida, a campanha com que se dirigiram ao povo os decepcionou profundamente: em seu esforço propagandístico tomaram consciência do imenso obstáculo que constituía a ignorância e a apatia das massas camponesas, assim como sua disseminação, que lhes fez empreender o caminho do terrorismo, forma de ação similar, de outro lado, as que, espontaneamente, utiliza a massa rural empobrecida e escravizada. Sua impotência para mobilizar os milhões de mujiks com sua propaganda, unida a seu impaciente desejo de destruir o jugo intolerável da autocracia, os levaram por último à exaltação da ação individual, do valor do exemplo e do gesto generoso do sacrifício dos heróis.

Eles são os que, no inicio do século 20, inspiram a criação do partido socialista-revolucionário, continuador do populismo por sua fé no papel revolucionário destinado aos camponeses em seu conjunto e no terrorismo político considerado como forma de ação. Os que logo serão os socialistas-revolucionários – conhecidos familiarmente como SR – matizam suas teses sob o influxo do desenvolvimento econômico, aceitando incluir o proletariado industrial entre as forças revolucionárias, e admitindo que a diferenciação que se opera nas fileiras do campesinato provoca o surgimento de reflexos políticos divergentes. O “socialismo construtivo” que, no inicio do século, defende Victor Chernov, personagem familiarizado com o socialismo ocidental, prevê duas fases necessariamente sucessivas da revolução. O programa dos SR, ao distinguir entre reivindicações mínimas e máximas, facilitará a aproximação destes com o “socialismo populista” dos setores pequeno-burgueses. Só uma segunda etapa revolucionária poderá realizar o socialismo agrário com o mir como base. A tarefa imediata é a construção de uma república democrática. A imensa maioria da intelligentsia e um importante setor da pequena burguesia integram os quadros deste partido cuja base é camponesa. Não se pode portanto estranhar que, em suas fileiras, se encontrem ombro a ombro nacionalistas exaltados, democratas avançados, revolucionários camponeses próximos aos libertários e liberais em busca de apoio popular.

Sem dúvida, a mesma evolução que contribui para modernizar as teses populistas, serve ao mesmo tempo para fortalecer a oposição de seus adversários no seio do movimento revolucionário. O marxismo se estende por toda a Rússia na época do desenvolvimento da grande indústria e do crescimento do proletariado. Seu mais importante expoente será Jorge Plekhanov, antigo populista que, em 1881 e com o nome de “Emancipação do Trabalho”, funda o primeiro grupo marxista russo. O mesmo traduz e difunde em língua russa as principais obras de Marx e Engels e, sobretudo, inicia a luta ideológica contra os populistas, assentando as bases da vitória posterior dos social-democratas sobre os SR. Ao refutar a convicção populista de que a economia e a sociedade russas se beneficiam de um desenvolvimento tão original como privilegiado que lhes daria acesso ao socialismo sem necessidade de passar por uma fase de capitalismo industrial. Plekhanov se empenha em demonstrar que, pelo contrário, o desenvolvimento capitalista é uma etapa inevitável que, graças à geração do proletariado, permitirá num último estágio derrotar o sistema e assegurar a vitória do socialismo pelo desenvolvimento das forças produtivas. A idéia fundamental dos social-democratas será que o proletariado, por sua concentração, condições de trabalho que favorecem a consciência de classe e a organização, terá que desempenhar, apesar de sua pouca importância numérica, o papel de vanguarda que se negam a atribuir à informe massa camponesa atomizada pelo incipiente desenvolvimento capitalista. Plekhanov, em sua polêmica, ataca com especial veemência a concepção dos populistas sobre a função dos indivíduos na história: afirma que só podem desempenhar um papel decisivo quando sua ação se exerce no mesmo sentido do desenvolvimento objetivo das forças econômicas e sociais, condenando qualquer prática terrorista que se apóie na idéia de despertar uma massa camponesa historicamente condenada a não ser senão uma retaguarda revolucionária.

Desta forma e frente ao populismo, se define em grande medida o pensamento marxista russo. Em muitos aspectos podia parecer, aos olhos de um observador de sua época, mais moderado este que aquele: aceita a iminência de um desenvolvimento capitalista ao que alguns de seus componentes, os «marxistas legais», chegaram a apoiar na prática, apesar da resistência operária que suscita; mesmo assim condena o terrorismo individual que parecia ser a mais extremista das formas de ação revolucionarias. Suas perspectivas fundamentalmente parecem abarcar um prazo muito maior. Os SR, partindo do estado presente do país e de uma determinada concepção de seu passado, preconizam a ação direta, revolucionaria e imediata. De sua parte, os social‑democratas colocam seus princípios de ação em virtude de uma análise histórica: a revolução que preparam se situa num futuro mais longe, mais além de una etapa burguesa e capitalista obrigatória para a sociedade russa. Em definitivo, estes últimos parecem constituir em muitos aspectos uma ameaça menos imediata para o regime.

Na realidade, por cima do radicalismo de suas consignas e de suas formas de luta, os SR não têm outro objetivo que uma democracia política que a todas as luzes carece de bases objetivas. Os social‑democratas, de um lado, preconizam e preparam uma revolução social, isto é, a curto prazo, apelam para a organização e à ação operárias, à mobilização pela terra dos camponeses pobres: ao comportar-se desta forma, por um principio, colocam em questão o equilíbrio da sociedade do amanhã, contribuindo para aumentar as contradições reais. De outro lado, suas perspectivas não são estritamente russas, mas internacionais, o que aumenta sua influência num império que oprime numerosas nacionalidades diferentes: suas colocações não se baseiam na suposta predestinação de um “povo”, mas no lugar ocupado no processo produtivo por uma classe que, em todos os países ocidentais, cresce com a revolução industrial. A Historia mostrará em seguida que sua aparente moderação não faz senão dissimular objetivos revolucionários infinitamente mais radicais: na situação atual, por cima das aparências e das tradições, distinguem perfeitamente o que ficou defasado do que está nascendo. No seio das contradições do presente, os marxistas analisam o sistema de forças que se está criando com o fim de preparar o porvir.

Sem dúvida, no inicio do século, o movimento social‑democrata russo é o único que não conseguiu fundar um autêntico partido operário. Após as brilhantes polêmicas que Plekhanov encabeçou, seus discípulos e companheiros colocam o problema prático da seguinte forma: pela importância mesma dos obstáculos que a autocracia opõe a qualquer organização inclusive e níveis mínimos, os social­democratas da Rússia, mais ainda que seus correligionários do Ocidente, vão dedicar, como marxistas conseqüentes, toda sua atenção a criar o instrumento que lhes servirá para transformar um mundo que, segundo Marx, não se trata já de interpretar. O jovem Uliánov – Lenin – é o que melhor define esta busca quando após uma curta experiência de organização, escreve na emigração seu folheto sobre As tarefas dos social‑democratas. “Não percamos um tempo valiosíssimo, afirma em sua conclusão. Os social‑democratas russos devem contribuir com um esforço imenso para satisfazer as necessidades do proletariado que está despertando, para organizar o movimento operário, fortalecer os grupos revolucionários, sua vinculação recíproca, fornecer aos operários literatura de propaganda e de agitação, unir os círculos operários e os grupos social‑democratas dispersos por todos os rincões da Rússia num só partido operário social‑democrata. Na busca de seu instrumento histórico, na construção de seu partido será onde, pela primeira vez, porão à prova os marxistas russos tanto suas forças como seus métodos.

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