quinta-feira, 23 de outubro de 2014

México: A ira contra o sequestro de estudantes beira a ebulição

Jorge Martin

Ontem (22/10/2014), centenas de milhares de pessoas marcharam na Cidade do México e dezenas de milhares de pessoas em dezenas de outras cidades em todo o México para protestar contra o sequestro de 43 estudantes normalistas de Ayotzinapa. Eles foram claros em apontar o dedo diretamente para o Estado mexicano. As ações eram parte de uma greve estudantil generalizada de 48 horas, que envolveu todo o país e que continua até hoje.


A marcha na Cidade do México foi uma das maiores dos últimos tempos. O primeiro grupo de manifestantes chegou à enorme Praça Zócalo às 19h, tendo percorrido 4 km a partir da Praça Angel de la Independência. O último contingente chegou à Praça 4 horas mais tarde, quando já eram quase 23h.

Estudantes de todo o país, em assembleias de massa, votaram por uma greve de 48 horas. Esta foi a segunda greve de 48 horas realizada pelos estudantes que seguiram o apelo lançado pela Assembleia Nacional do Povo, criada na semana passada pelo Colégio Ayotzinapa de Formação de Professores (Escola Normal Rural) e pelo Sindicato de Professores do Estado de Guerrero, pelo CETEG e seus aliados.

O clima na manifestação era de extrema ira, mas também muito politizado. O principal alvo da fúria dos manifestantes foi o presidente Enrique Peña Nieto que é identificado como responsável pelo fato de que quase um mês depois dos estudantes terem sido sequestrados pela polícia local em Iguala (Guerrero), seu paradeiro continua desconhecido. "Fuera Peña Nieto" foi uma das principais palavras de ordem.

Estudantes representaram o grosso da manifestação. Todos os campi da UAM, todas as faculdades da principal universidade UNAM, a Universidade Nacional de Formação de Professores, mas também do UACM, UACH, da Ibero e outros. A presença do Instituto Politécnico, que está em greve há quase um mês, também foi significativa, com contingentes de suas diferentes escolas, com 10 mil participantes na marcha. Isso significou uma ruptura com certo preconceito existente contra a greve dos estudantes se ligar a questões mais amplas.

O sequestro dos 43 estudantes de Ayotzinapa trouxe bruscamente para a atenção de milhões de pessoas a podridão do Estado capitalista no México e suas ligações com o crime organizado. Uma piada de grande circulação no México nos dias de hoje pergunta se são os cartéis de drogas que se infiltraram no PRI no poder ou o contrário. Não faz diferença, e não é só o PRI, mas em todos os principais partidos políticos.

Recordemos os fatos: os estudantes de uma escola de formação de professores, conhecidos por sua militância, foram atacados sem aviso prévio por parte da polícia local Iguala no Estado de Guerrero. Três deles foram mortos no local e outros 23 feridos. Três outros transeuntes também foram mortos. Os alunos sobreviventes foram então perseguidos e levados pela polícia de Iguala e de Cocula, e foram entregues ao cartel de drogas Guerreros Unidos. O motivo parece ser que o prefeito de Iguala, que está intimamente ligado ao cartel de drogas, estava com medo de que os estudantes fossem protestar contra uma recepção organizada por sua esposa, que também está envolvida na política e no cartel.

O governador do Estado de Guerrero, Aguirre, também está envolvido no incidente. Ele recebeu relatos de que o ataque estava acontecendo, mas não fez nada. Ele, então, ordenou a prisão do prefeito (que também é um aliado político), mas deu-lhe tempo suficiente para escapar (depois de assistir a uma reunião do Conselho local na qual oficialmente lhe foi dada licença!). Por fim, o presidente do país, Peña Nieto, realmente não moveu um dedo até que a pressão da opinião pública nacional e internacional tornou-se muito forte. Cinco semanas após o sequestro a investigação não avançou um centímetro, apesar do fato de que 52 policiais tenham sido presos. Os pais dos alunos disseram abertamente: “Eles estão procurando por eles, mas apenas onde já sabem que eles não estão”.

Só para dar uma indicação do nível de cumplicidade do Estado neste caso, o respeitado defensor dos direitos humanos e de migrantes, Padre Solalinde, declarou publicamente que as pessoas em quem confia teriam dito a ele que os estudantes desaparecidos foram queimados, alguns dele ainda quando estavam vivos. Ele disse que não poderia revelar suas fontes, pois isso as colocaria em risco, mas na segunda-feira, 20 outubro, ele foi ao escritório do Procurador Geral do Estado (PGR) para fazer uma declaração oficial. Apesar de ter um compromisso agendado, ninguém o recebeu, nem mesmo para protocolar oficialmente o recebimento de uma declaração por escrito.

O fato de que o governo nacional tenha sido incapaz ou não tenha tido vontade de resolver o caso, provavelmente aponta para ligações de clientelismo, favores devidos, chantagem recíproca e interesses comuns entre os autores e os que estão no poder em Los Pinos.

A raiva crescente não se dá somente por este incidente em particular, horrível como ele é. Esta é apenas a gota d'água que fez a raiva acumulada transbordar. Raiva frente às dezenas de milhares de pessoas que morreram na inútil “guerra às drogas”, frente à conivência dos políticos, em todos os níveis, com gangues criminosas, com os sequestros e extorsão de migrantes da América Central por forças estatais e grupos criminosos, com o assassinato impune, e tratado como ocorrência normal, de sindicalistas, camponeses e jovens ativistas, raiva contra corrupção generalizada e a fraude eleitoral, etc.

“Estamos doentes e cansados, já tivemos o suficiente deste governo corrupto maldito que faz os homens, mulheres e crianças desaparecem”, disse um dos manifestantes, resumindo o estado de espírito.

Este incidente terrível ameaça desencadear uma explosão nacional que, pelo menos em Guerrero, pode adquirir proporções insurrecionais. A Assembleia ameaçou tomar cada um dos 81 municípios do estado e que só reconhece o poder da polícia comunitária, as organizações de autodefesa de base comunitária erguidas por pessoas comuns, a fim de defender-se do Estado e das gangues criminosas.

No final de uma manifestação de massa de mais de 20.000 pessoas em Iguala, a prefeitura local foi incendiada. Na grande manifestação na Cidade do México, os pais dos estudantes desaparecidos deram um ultimato de 48 horas para o governo encontrar seus filhos desaparecidos.

Desde já, uma nova greve estudantil tem sido chamada para a próxima semana. O central sindical UNT apelou para uma greve geral de 24 horas para 28 de outubro. Em Guerrero, diferentes grupos de trabalhadores, incluindo os que estão na universidade UAG, já realizaram paralisações. Cerca de 1000 ativistas da combativa subsede 22 de Oaxaca do Sindicato dos Professores - CNTE - foram para Guerrero para apoiar seus irmãos e irmãs na luta.

A imagem cuidadosamente construída de Peña Nieto como um "reformador", que tinha sido capaz de realizar todas as contrarreformas que os capitalistas exigem, esmagando em seu caminho qualquer oposição ao trazer para baixo os níveis de violência e corrupção, foi abalada por este movimento.

De fato, a razão pela qual foi capaz de realizar uma série de ataques ocorreu principalmente pelo fato de que os diferentes setores das massas lutavam de forma isolada. Sempre que houve uma tentativa de uma luta unificada, por exemplo, contra a "abertura" da indústria do petróleo (ou seja, a sua privatização parcial), a direção deixou a desejar e não tinha uma estratégia clara chamando uma série de manifestações consecutivas de massa, um após a outra, o que teve o efeito de cansar o movimento. A direção do Morena, o novo partido de esquerda em torno de Lopez Obrador, parecia estar preocupada apenas com a sua estratégia eleitoral, o que para eles era completamente distinto de participação ou dar prioridade para a luta de massas.

Neste caso, a direção do Morena foi alvo de críticas de suas próprias fileiras por sequer ter emitido uma declaração clara em favor dos estudantes. Na verdade, parece que um dos possíveis candidatos do Morena em Guerrero tinha ligações com o prefeito de Iguala e agora foi demitido pelo governador do estado, era secretário de saúde no município. Finalmente, Lopez Obrador pediu que sua manifestação prevista contra a privatização do petróleo, no dia 26 de outubro, se transformasse em um protesto em apoio aos estudantes de Ayotzinapa.

A diferença entre este e os movimentos anteriores, além do acúmulo de raiva, foi o fato de que alguém ofereceu uma direção clara, neste caso, os estudantes da Escola Normal Rural e seus aliados no movimento dos professores e a força de polícia comunitária. Além de terem organizado protestos de massa, ações diretas e desobediência civil em Guerrero, eles fizeram um claro apelo por uma greve nacional de estudantes, que depois se tornou um dia internacional de protesto.

Se houver uma direção adequada, isso pode ser o começo do fim deste governo reacionário e até mesmo o início de um processo revolucionário neste país chave com grandes tradições da luta.

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