quinta-feira, 21 de agosto de 2014

NO JUSTICE! NO PEACE! Revolta popular nos EUA

Pedro Bernardes Neto 

Racismo e capitalismo são duas faces da mesma moeda” (Steve Biko)

No dia 9 de agosto, o jovem Michael Brown foi assassinado pela polícia da cidade de Ferguson, Missouri nos EUA. Ele era um jovem trabalhador, estava desarmado e levou 9 tiros quando. de acordo com testemunhas, já estava rendido. Sua morte provocou a revolta da população negra e trabalhadora na maior potência capitalista do mundo. Ontem, dia 20 de agosto, a polícia de Ferguson contabilizou mais um assassinato (1).  Além disso, o aparato militar do país foi utilizado para reprimir manifestantes completamente desarmados, o que demonstra o que é a democracia burguesa aplicada na economia mais forte do mundo. Até o momento são 147 pessoas presas em protestos pacíficos. (2) 




         A BBC, mídia burguesa, divulgou dados contundentes sobre como o racismo ainda é fortemente presente nos EUA, mesmo após mais 50 anos de cotas raciais e ações afirmativas:

A análise concluiu, com base nos valores relativos a 2010, que os brancos têm, em média, seis vezes mais patrimônio do que negros e hispânicos (US$ 632 mil ante US$ 103 mil), uma relação que aumentou quando comparada com a média de 1983. [...] Apesar de os negros serem 12% da população do país, representam 40% das pessoas presas dos EUA, segundo informou em agosto a Universidade de Stanford, na Califórnia [...] Enquanto 73,4% dos brancos tinham uma casa no final do ano passado, esse número foi de apenas 43,2% para os negros. A taxa para os hispânicos foi de 45,5% e a média nacional era de 65,2%.”(3)

            Vale ressaltar que a maioria absoluta do policiamento de Ferguson é composta por brancos, em uma cidade com 67% de negros. Ou seja, não há reforma, como as cotas, que repare ou corrija os males causados pelo capitalismo.
            Certamente a morte de Michael Brown não foi a primeira e nem será a última. Porém, ela aponta que os ânimos estão mudando nos EUA. O Materialismo Dialético nos ensina que o acúmulo quantitativo gera um salto qualitativo tanto na natureza, quanto na sociedade. É assim com a água ao evaporar, p. ex.. Isso não ocorre gradualmente, assim que suas partículas atingem determinada temperatura ela dá um salto qualitativo de um elemento líquido para um gasoso.
            Esse também foi o caso das jornadas de junho no Brasil em 2013. A juventude paulista e brasileira já havia sofrido repressões muito piores do que aquela sofrida no dia 13 de junho, que culminou em milhões no Brasil todo indo às ruas, nem por isso as massas saíram às ruas em seu socorro. Foi após o acúmulo de anos sofrendo com as injustiças e males do capitalismo nas duas últimas décadas, que gerou-se uma situação onde faltava somente uma faísca para trazer novamente as massas revoltosas às ruas. É bem provável que esse seja também o caso dos EUA e condições pra isso não faltam, mesmo com o primeiro presidente negro da história no país, como frequentemente aponta o Movimento Negro Socialista:

Porém, pesquisas realizadas pelas Universidades de Ohio, Oxford e o African American Reference Sources, revelam que a maioria esmagadora da massa carcerária nos EUA é negra. E mais: que os EUA concentram atualmente mais negros dentro das grades que escravos no século XIX.  Além disso, o número de presos e mortos diariamente dobrou após a posse de Obama e a população pobre cuja imensa maioria é negra, ocupa os piores índices sociais (saúde, educação,emprego) do país em 25  anos.
Em 1850, com a escravidão, uma criança negra tinha mais chances de ser criada pelos pais do que atualmente com o governo imperialista norte americano. A senzala capitalista nos EUA estagnou todos os índices e, desde 1990 o número de jovens negros que conseguem concluir o ensino médio paralisou, enquanto milhares de jovens são criminalizados e lançados ao limbo, somados os mais elevados índices de desemprego. A criminalização em massa, planejada para atingir os trabalhadores aumenta a pobreza e promove a precarização dos serviços públicos essenciais como alimentação e transporte, afetando especialmente os negros.” (4) 

            A seção norte-americana da CMI (Corrente Marxista Internacional) também aponta essas contradições de modo preciso:

Economicamente, a situação no Missouri é semelhante ao resto do país, e a crise nos locais onde predomina a classe trabalhadora, como Ferguson, tem sido especialmente difícil para muitos, com a taxa de desemprego real em torno de 14% e mais de 20% para os negros. As taxas para os jovens negros e latinos são aproximadamente o dobro desses valores globais. De acordo com a organização Jovens Invencíveis "Durante a última década, a oportunidade econômica para jovens adultos em Missouri caiu drasticamente e a recessão tornou tudo ainda pior. Como renda e perspectivas de emprego diminuem, as pessoas mais jovens se encontram em trabalho com tempo parcial, ou fora do mercado de trabalho por completo." (5) 

            Os Panteras Negras, na mobilização de massas dos anos 50 e 60 contra o Racismo nos EUA, já tinham sofrido (e ainda sofrem) o poderio do aparato repressor norte americano, com utilização de repressão brutal (assassinatos, seqüestros, criminalização e prisões) e com a difusão em massa de heroína nas comunidades negras. Esse foi o meio da burguesia “anestesiar” o ímpeto de transformação da classe no período. Além disso, o movimento foi considerado o “inimigo interno” número 1 pelo FBI, pois atacavam declaradamente o sistema capitalista, o que significa que representaram possivelmente a grande ameaça à ditadura de classe burguesa na segunda metade do século XX. Sob o capitalismo, essas condições sempre irão acumular e explodir. É exatamente isso que ocorre atualmente nos EUA, mesmo que ainda não na mesma medida das Jornadas de Junho. 
            A Juventude Marxista e o Movimento Negro Socialista estão na luta contra o racismo e o capitalismo e apoia total e irrestritamente as manifestações nos EUA. É nosso dever explicar, como fizeram os Panteras Negras, que o racismo é uma ferramenta de exploração dos capitalistas, com o fim de baratear a mão de obra do negro e do branco e, fundamentalmente, dividir a classe trabalhadora, aumentando os lucros e minando nossa organização. Assim, é central explicar que somente materializando toda essa revolta nos EUA em organização é que poderemos, de fato, avançar na luta contra o capitalismo.

Fontes: 



(3)http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140817_desiguladade_eua.shtml
http://www.cbc.ca/news/world/michael-brown-shooting-protesters-clash-with-riot-police-after-ferguson-curfew-1.2738849


(4) http://www.marxismo.org.br/blog/2013/11/08/moderna-senzala-capitalista-eua-tem-mais-negros-atras-das-grades-do-que-escravos-no

(5) http://www.marxist.com/usa-michael-brown-murder-enough-is-enough.htm

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