quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Militância estudantil e o papel dos marxistas (Parte 2): eleições estudantis

Adam Booth
(Tradução: Pedro Bernardes Neto)

Abaixo apresentamos a continuação do texto traduzido do camarada Inglês Adam Booth Militância Estudantil e o papel dos Marxistas. Agora o foco é nas experiências de aplicação do método marxista de ação no movimento estudantil na UCL (Universidade do Colégio de Londres), Cambridge e em Norwich, e quais resultados isso gerou em longo prazo, demonstrando a efetividade e aplicabilidade do método marxista de ação. 

Para acesso à primeira parte ver: http://www.juventudemarxista.com/2014/07/militancia-estudantil-e-o-papel-dos.html

Grupo de discussão marxista de Cambridge

Lições da UCL (Universidade do Colégio de Londres)

            Muitas dessas lições gerais destacadas acima [na parte 1] foram demonstradas na prática pelo exemplo concreto da recente eleição do sindicatos dos estudantes na Universidade da União do Colégio de Londres (UCLU), onde Stella Christou – adepta e fundadora do Coletivo Marxista da UCLU - disputou cargo de Diretora de Educação e Campanha. Stella realizou a disputa com o suporte de outros membros do Coletivo Marxista da UCLU, que foi formado somente no começo deste ano acadêmico, mas que tem rapidamente se tornado um dos maiores grupos políticos na universidade, e provavelmente a maior organização de esquerda no campus. A campanha de Stella foi abertamente política, não somente levantando demandas contra todas as taxas, cortes e privatizações – com referência específica à situação particular da UCL e o infame “Plano de Mestrado” ao abrir o campus aos grandes negócios – mas também conectando essas demandas a uma necessidade mais ampla a conectá-la com o resto do movimento estudantil e com o movimento operário, campanha por uma UNE combativa, e luta por políticas socialistas contra os Cortes Tory (1).

Conferência nacional da UNE britânica

A competição principal enfrentada por Stella veio de Keir Gallagher, um candidato de esquerda que estava competindo ao lado de vários outros militantes que tinham experiência do movimento estudantil de 2010 como parte de uma chapa independente (sem organizações políticas declaradamente compondo a mesma).  Como os outros nesta chapa não oficial, o programa de Keir, enquanto levantando várias importantes demandas individuais, não apresentou nenhuma tentativa de conectá-las com quaisquer lutas ou questões políticas mais amplas. Outras demandas foram totalmente reformistas. Ao contrário de se opor a todas as taxas, Keir simplesmente exigia o não aumenta delas; não havia menção da necessidade de um movimento nacional dos estudantes ou uma UNE combativa; nem existia qualquer tentativa de explicar como os ataques aos estudantes e educação são o resultado de uma crise econômica maior e do programa governamental de austeridade. Em outras palavras, Keir e os outros militantes pintavam o quadro de que suas reformas e demandas sugeridas poderiam ser alcançadas por campanhas isoladas da UCLU e dentro dos confins do capitalismo e de sua crise atual.
Um ponto em particular é a ausência de qualquer posição unificada por meio da (não oficial) chapa de militantes de esquerda quanto à UNE. Certamente, seria essa uma questão vital para qualquer grupo de socialistas dentro do movimento estudantil? Como pode qualquer um que deseja combater as taxas e cortes na educação não ter uma perspectiva de como o movimento estudantil pode nacionalmente proceder?  Esses ataques aos estudantes não são feitos localmente, mas nacionalmente (e, de fato, internacionalmente); uma perspectiva nacional para o movimento estudantil, portanto, é vital e não de importância secundária.
E ainda tal posição e perspectiva não existiam para esse grupo de militantes. Por que? É impossível saber em definitivo, mas a partir de algumas discussões com muitos daqueles que estavam concorrendo nas eleições de chapas não oficiais, ocorreu que eles não apresentavam nenhuma reivindicação relacionada à UNE, por causa das divergências dentro do grupo quanto à este exato ponto. Em outras palavras, ao contrário de discutir as políticas envolvidas e tentar alcançar um acordo em como orientar e proceder, a questão foi evitada por medo que ela pudesse causar debate.
No fim, esse grupo militante conquistou quase todos cargos que eles disputaram. Isso é claramente algo a ser comemorado por quem é da esquerda. Contudo, alguém deve perguntar: como irão esses militantes trabalhar juntos no futuro, caso haja um afluxo no movimento? Em tal ponto, a questão da UNE se tornará concreta: lutaremos para mudar a liderança e política da UNE, ou defenderemos dividir a UNE e criar uma alternativa radical? Ou devemos somente defender uma nova UNE dentro de certas circunstâncias e, em caso positivo, quais circunstâncias seriam essas?
Desta forma, pode-se ver como tentar improvisar uma posição em tais importantes questões – durante uma movimento estudantil de massas quando uma posição é mais necessária – pode somente levar a divisões e desorientações. Sem dúvida não é melhor, portanto, discutir essas questões políticas antecipadamente? Assim, é evidente que ao contrário de criar “unidade” e capacitar a “ação”, evitar discussão política em longo prazo simplesmente cria desunião e paralisia.
Agora que esses militantes venceram suas respectivas eleições, alguém deve também pensar como eles alcançaram qualquer coisa além das simples reivindicações que eles mencionaram durante sua campanha de eleição. Como você consegue genuinamente convencer a massa de estudantes a combater maiores campanhas e lutas por reivindicações quando você não trouxe essas questões para ser eleito e, portanto, não tem mandato para isso?  Além disso, como você mesmo pode alcançar qualquer simples reforma e reivindicação em um período quando o capitalismo está em crise e cortes estão sendo feitos em quantidade e ferocidade crescentes?
Essa é a lição que os líderes reformistas estão ensinando internacionalmente, incluindo os líderes dos sindicatos: não existe espaço para reformas sob o capitalismo. No fim, o melhor que tais líderes podem oferecer é um “escudo amassado” contra os cortes, e os líderes dos sindicatos estudantis não farão melhor – aqueles que imaginam que eles conseguem de alguma forma conquistar reformas isoladamente a partir de qualquer luta mais ampla vão rapidamente se encontrar ajudando a implementar os cortes.
Outro importante exemplo das eleições da UCLU foi provido durante o Encontro Anual de Membros do Sindicato dos Estudantes (AMM – Student Union’s Annual Members Meeting). Uma ótima moção foi apresentada por membros da chapa militante independente, chamando pela “Desconfiança no Plano de Mestrado de Bloomsbury”. Parte desta moção chamava o sindicato dos estudantes a apoiar os estudantes e trabalhadores que tomassem ações diretas contra as propostas do plano de Mestrado. Stella e outros membros do coletivo Marxista propuseram emendar este aspecto da moção, sugerindo que – ao contrário simplesmente apoiar a ação direta por indivíduos ou grupos – o sindicato dos estudantes deveria lançar uma contínua campanha de massa contra o Plano de mestrado, envolvendo encontros de massa que trariam à tona questões políticas e permitiriam a massa dos estudantes participar da decisão de qualquer ação direta.
Essa emenda teve argumentação contrária daqueles da chapa militante independente, que afirmavam que os estudantes não estavam interessados em participar de tais decisões ou mesmo em políticas estudantis em geral, e que existe, portanto, uma necessidade por ação direta dos grupos militantes. Tal argumento está cheio de contradições do começo ao fim, como o material de campanha da Stella explicou na época, e se baseia em última instância a culpar os estudantes pela falta de qualquer movimentação. Mas a falta de envolvimento dos estudantes comuns em políticas estudantis não é culpa daqueles estudantes; ao contrário, é a reflexão da forma na qual, muito frequentemente, políticas estudantis e líderes estudantis não expressam ou representam qualquer das necessidades genuínas e desejos dos estudantes comuns. Isso também reflete quantos estudantes sentem-se alienados mesmo das políticas estudantis de esquerda e da militância, precisamente por causa da panelinha, natureza do olhar para dentro daqueles envolvidos na militância. Novamente, deve ser dada ênfase que não existe utilidade em substituir um indivíduo pelas massas. Se não existe o ânimo entre a massa de estudantes por ação, então essa é a tarefa dos Marxistas de pacientemente explicar e construir forças ativas na preparação por um melhora no movimento, não simplesmente aparecer a frente com ocupações, etc. independentemente do apoio entre a maior parte do corpo discente.
Finalmente, é válido notar as tentativas freqüentes da chapa independente durante as eleições da UCLU em persuadir Stella a dar um passo atrás, sobre o fundamento que ela “dividiria os votos da esquerda”, apesar do preferencial sistema de voto tornando tal “racha” impossível. Stella foi abordada em inúmeras ocasiões por membros da chapa independente – e outro de fora da UCL conjuntamente – os quais imploraram a ela para se retirar das eleições. Além disso, muitos dos militantes candidatos disseram a Stella que ela poderia ter sido parte de uma chapa independente, se ela somente tivesse se aproximado deles mais cedo – mas como ela ou qualquer outro saberia da existência de tal chapa, visto que esse grupo militante não organizou quaisquer encontros/debate em todo o ano!
Tais métodos são anátemas (maldições) aos revolucionários. Tentar costurar as eleições por meio de acordos nas portas do fundo e esculpir a torta política nas sombras é completamente sem escrúpulos e tem mais relação com a burocracia que nós como socialistas estamos lutando contra do que com os métodos do Marxismo. O papel dos marxistas deve ser utilizar eleições como plataformas a partir das quais podemos levantar idéias políticas e conectar reivindicações específicas e lutas do movimento estudantil a necessidades mais amplas por políticas socialistas, não simplesmente como meios pelos quais conquistamos posições numa base política. Se podemos vencer as eleições enquanto abertamente difundindo nossas idéias, então isso pode abrir portas para organizar campanhas que ajudam a colocar essas idéias em prática; mas existe pouco benefício em vencer sem o apoio para nosso real programa.

Experiência de Cambridge

            Minha própria experiência de militância estudantil na Universidade de Cambridge também provê muitos exemplos concretos das lições gerais explicadas acima. Eu comecei na Universidade em 2005, o último ano que eu tive que pagar a menor taxa de anuidade, que então custava por volta de 1,100 euros. Eu somente me tornei politicamente ativo na universidade em meu segundo ano, ajudando a organizar atividades sobre a campanha            Tirem as Mãos da Venezuela no campus.
            Não existiam grandes acontecimentos na universidade naquele tempo, ou pelo menos não ações reais de massa que eu tivesse conhecimento.  Talvez existissem coisas acontecendo que eu não soubesse (Eu vagamente me lembro de ouvir sobre uma pequena ocupação), mas isso somente enfatiza a natureza de maior parte da militância estudantil, que muito frequentemente se mantém ao redor de pequenos grupos de amigos ou panelinhas existentes e contatos, e que é, portanto, inacessível à massa de estudantes e para aqueles que estão procurando entrar na atividade política no campus pela primeira vez.
            A principal virada ocorreu no meu quarto ano, no início de 2009. A invasão de Gaza por tropas Israelenses na virada do ano levou a uma onda de ocupações universitárias e manifestações pacíficas pelo país. Alguns militantes organizaram uma manifestação na Faculdade de Direito em Cambridge bem cedo nesta onda de ocupações, que durou seis dias.  Sem realmente saber o que esperar, eu me joguei dentro da ocupação e participei ativamente.
            A ocupação em Cambridge, no fim das contas, não foi realmente a algum lugar. Em seu momento de pico estavam lá 150 pessoas, mas isso gradualmente se dissipou a pequenos grupos visto que a maioria do tempo foi gasto em discussões sem fim sobre procedimentos organizacionais e tarefas, com muito pouca discussão política ou estratégias em favor de como ampliar o movimento ou alcançar quaisquer dos nossos objetivos. Embora a ocupação não tenha levado a muito em curto prazo, ela ajudou a estimular o movimento estudantil em Cambridge (e nacionalmente). Como resultado, eu decidi tentar e ficar em Cambridge por mais tempo para ficar envolvido no movimento estudantil que parecia estar ressurgindo.
            De alguma forma, minhas esperanças pelo renascimento do movimento estudantil foram prematuras. Um protesto estudantil nacional em Londres no começo de 2009 logo após a onda de ocupações atraiu somente cerca de 1000 pessoas, e no fim do ano acadêmico muitas das pessoas mais ativas em Cambridge se formaram e foram pra longe. Eu rapidamente me percebi como uma das únicas pessoas da esquerda organizada ainda na Universidade de Cambridge e o movimento parecia estar de volta ao refluxo.
            Esse episódio novamente demonstra o lado perigoso da alta rotatividade dentro das universidades. Se não se constrói uma base sólida e não se conquista ativamente novas pessoas, treinando-as anualmente, então a situação pode rapidamente mudar do positivo ao negativo. De estar em uma posição de luta, a Esquerda ativa, organizada pode muito facilmente se encontrar em uma posição de fraqueza.
            Em Cambridge, essa situação foi parcialmente passível de acontecer por conta de como os militantes envolvidos na ocupação (incluindo a mim) tinham se orientado depois do breve afluxo do movimento que tinha ocorrido no começo de 2009. Em retrospectiva, e com a experiência ganha a partir disso, é claro que deveríamos ter nos voltado para fora ou utilizado a ocupação como o começo de um processo de construção de um amplo e sólido grupo de esquerda dentro da Universidade. Apesar de a ocupação ocorrer fundamentalmente pela invasão da faixa de Gaza e pela situação do povo Palestino, muitas outras questões políticas foram levantadas durante a ocupação com relação à vida universitária em geral, e isso poderia ter sido a base para construir uma campanha mais ampla.
            Ao contrário, contudo, os números incrivelmente diminuíram de encontro para encontro e o pequeno grupo que permaneceu ativo era unido mais por amizade e laços pessoais do que por um desejo de reconstruir uma base política na universidade que duraria além dos seus meses restantes como estudantes. Eu fui igualmente culpado disso como qualquer outro, permitindo eu mesmo ser sugado dentro da nostalgia pela ocupação e euforia que tínhamos sentido na época, ao contrário de olhar a frente em favor de como construir uma campanha no futuro.

A experiência em Norwich

            No verão de 2009 eu decidi, com a ajuda dos apoiadores da Socialist Appeal em Cambridge, estabelecer um “Grupo de Discussão Marxista” na universidade para prover um fórum para explorar as idéias mais amplas que estavam sendo levantadas entre uma crescente camada radicalizada da juventude. As crises econômicas, que tinham estourado abertamente no outono de 2008, tinham levado a uma recessão em pleno desenvolvimento pelo próximo ano, e muitos estudantes estavam se formando em um mercado de trabalho com crescente competição. As pessoas estavam novamente discutindo abertamente as idéias Marxistas em relação aos ataques naturais da crise do capitalismo, e existia um senso geral de que a juventude estava particularmente sendo afetada por essa crise.
            Companheiros militantes da Socialist Appeal, com os quais eu estava em contato, já tinham tomado a iniciativa em anos anteriores de organizar coletivos Marxistas na Universidade de Londres (ULU) e na Universidade de Anglia Leste (UEA) em Norwich. O coletivo[1] da UEA, em particular, tem sido muito bem sucedido, organizando encontros regulares sobre a teoria Marxista e também importantes eventos, tais como os movimentos de massa que estavam acontecendo na época no México, Venezuela, Paquistão e Irã. O coletivo se conectaria ativamente com estudantes de outros coletivos e também com acadêmicos, tais como um simpatizante do departamento Latino-americano, e isso possibilitou a eles organizar grandes encontros sobre assuntos atuais – incluindo um encontro com mais de 150 pessoas sobre a Venezuela – e alcançar um número cada vez mais amplo da camada de estudantes que estavam interessados nas idéias socialistas.
            O coletivo na UEA – oficialmente nomeado coletivo socialista – foi também utilizado como uma base para campanhas no campus e no sindicato estudantil. Uma importante campanha foi lançada contra a Companhia privada de ônibus, que era universalmente odiada pelos estudantes pelos serviços precários que oferecia enquanto cobrando preços exorbitantes, e os membros do coletivo intervieram no sindicato da UEA para conseguir fazer o sindicato estudantil afiliar-se às campanhas internacionais de solidariedade tais como Tirem as Mãos da Venezuela e Campanha pela Defesa dos Sindicatos do Paquistão.
            Além disso, o coletivo da UEA foi ponto chave para a necessidade dos estudantes de intervir dentro do movimento operário mais amplo, e em particular nas lutas locais dos sindicatos e trabalhadores. O coletivo organizou a solidariedade dos estudantes aos trabalhadores do correio que estavam de greve, levantado dinheiro por meio de uma arrecadação e freqüentado os piquetes, e  por uma  mostra do filme de Ken Loach’s “Pão e Rosas” que foi colocada para ajudar a Campanha “Justiça aos Profissionais da Limpeza” (“Justice for Cleaners”) que estava ocorrendo na época.
            Pela intervenção no sindicato estudantil, os membros do coletivo foram também capazes de participar do conselho comercial de Norwich como delegados do sindicato da UEA. Essa posição foi utilizada para ajudar a apoiar a greve dos professores que eclodiu em 2008, com contato feito entre os membros do Coletivo Socialista e os líderes sindicais. Os estudantes ajudaram a panfletar por um encontro público sobre a questão e como resultado deste trabalho um dos principais membros do Coletivo Socialista foi convidado a discursar nos piquetes durante a greve.
            Também importante, o coletivo também se conectou com Partido Trabalhista local (Labour Party, também abreviado como Labour) e sindicatos para que recebessem um encontro com John McDonnel, um socialista Membro do Parlamento (MP) pelo Partido Trabalhista que estava concorrendo à liderança na eleição do partido em 2007.  Devido ao duro trabalho de panfletagem pelos membros do coletivo, mais de 100 pessoas vieram ao encontro com McDonnell, e por ser amplamente reconhecido por isso que o Coletivo Socialista foi de longe a maior e mais ativa organização política na UEA.
            O Coletivo Socialista da UEA começou da iniciativa de um único militante da Socialist Appeal em seu segundo ano da universidade, mas em dois anos tem se estabelecido como o ponto focal para a militância estudantil e de campanha no campus, assim como se transformando em uma importante parte do movimento mais amplo em Norwich. Tudo isso foi feito em uma época quando não existia realmente um movimento estudantil nacional sobre o qual falar. Vale ressaltar, isso somente foi alcançado como uma organização abertamente socialista, sem nenhuma intenção de diluir as idéias em algo mais “digerível” (palatável). Os estudantes foram atraídos pela clara análise e apresentação da teoria Marxista, que foi sempre conectada de modo concreto com eventos internacionais e com a necessidade pelas atividades de campanhas locais dentro dos movimentos estudantil e operário.

Grupo de Discussão Marxista de Cambridge

            O exemplo do Coletivo Socialista foi a inspiração por trás das minhas tentativas de fundar o Grupo de Discussão Marxista de Cambridge (Cambridge Marxist Discussion Group – MDG), o qual foi inaugurado na semana de calouros de Outubro de 2009, o primeiro ano dos meus estudos na pós graduação.
            A resposta ao MDG foi instantaneamente muito positiva, com mais de 200 pessoas se inscrevendo para o coletivo, atraídas por nosso cronograma de eventos, incluindo discussões da teoria Marxista, de história, entre outras. O coletivo foi um sucesso do momento, com aproximadamente 40 pessoas participando da primeira reunião e manutenção da boa audiência durante o resto do ano, incluindo uma dúzia de pessoas que atenderiam regularmente – e que descreveram os encontros como os mais esclarecedores de sua semana!
            Eu penso que a principal razão por trás do nosso sucesso com a MDG era que éramos vistos como um grupo sério, tanto em termos de teoria quanto de orientação. Nós não simplesmente discutíamos tendências efêmeras, como é frequentemente o caso no movimento estudantil, mas enfrentávamos importantes questões teóricas. Nós nunca escondemos nossa política ou diluímos nossas idéias para fazê-las mais aceitáveis. Nem tínhamos medo de debater nossas idéias abertamente como nossos oponentes. Em muitas ocasiões nós recebíamos visitas de direitistas que na maioria das vezes saíam com o rabo entre as pernas.  De fato, nós frequentemente entendíamos que era útil ter um ou dois oponentes presentes, visto que isso ajudava a acentuar a discussão e assim clarear ainda mais nossas idéias.
             Nós também tentamos conectar a MDG com o movimento dos trabalhadores, por exemplo, coletando dinheiro quando existia uma greve ou nos organizando para participar dos piquetes. De fato, eu me lembro de coletarmos dinheiro no nosso primeiro encontro para a greve dos correios que estava ocorrendo na época, e também de levar membros do coletivo para visitar os piquetes para uma greve dos membros da PCS (Public and Commercial Services – Sindicato dos Servidores comerciais e públicos) (2) do lado de fora do principal escritório da HMRC em Cambridge(3).
            Não existia uma grande mobilização na universidade naquele ano. Eu me lembro de uns poucos militantes competindo por cargos no sindicato dos estudantes e ficando bem desmoralizados quando eles não ganharam, o que mais tarde os fez desistir e largar a política estudantil. Novamente, isso demonstra a necessidade de construir uma base e ter uma perspectiva de um paciente trabalho em longo prazo.
            Além disso, houve uma breve (falha) tentativa por um grupo menor de esquerda na primavera de 2010 de fazer com que o sindicato estudantil não mais fosse afiliado da União Nacional dos Estudantes (UNE) por meio de um referendo – uma campanha que deixou os Tories e a direita alegres em apoiar, visto que eles esperavam que um sindicato estudantil independente seria menos político, como foi visto no Colégio Imperial em Londres e em outras universidades.
            O principal argumento daqueles da esquerda que defendiam a desafiliação era que a UNE tinha se tornado completamente paralisada pela burocracia e não era mais capaz de representar os estudantes de modo significativo. Incapaz de ver um processo mais longo de refluxo e afluxo que é inerente a qualquer movimento – novamente, por conta da falta de qualquer perspectiva em longo prazo e memória histórica – esses ativistas tem erroneamente descartado qualquer possibilidade da UNE mudar sob pressão dos eventos – uma perspectiva que os militantes da Socialist Appeal, e nós do coletivo Marxista em Cambridge, tínhamos explicado na época. No fim de 2010 a situação no movimento estudantil tinha mudado completamente e toda a conversa de desafiliação da UNE tinha se dissipado.

(Continua na parte 3)

Notas:

(1)   Tory é o partido e ideologia política tradicional e conservadores da Grã-Bretanha, os Cortes de Tory se referem aos cortes nos setores públicos, incluindo a educação superior obviamente.  http://en.wikipedia.org/wiki/Tory
(3)   HM Revenues and Custom  (HMRC): é a sede do prédio da Receita Federal em Cambridge.

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