quarta-feira, 23 de julho de 2014

UCB tem novo reitor. O que muda?

Matéria publicada pelo Correio Braziliense em 18 de julho.

Clítia Daniel

Afonso Celso Galvão foi afastado do cargo de reitor da Universidade Católica de Brasília, antes do fim do mandato. Gilberto Gonçalves Garcia o substituiu, segundo decisão do presidente do conselho de administração da mantenedora UBEC (União Brasiliense de Educação e Cultura). Na sua página no Facebook, o Diretório Central dos Estudantes – Democracia Já! - divulgou nota de repúdio (veja abaixo) ao processo de escolha do novo reitor. Nesse momento, surgem as perguntas: o que mudou para os estudantes e o que significa a decisão arbitrária da mantenedora? Vamos avaliar.

Em sua nota, a direção do DCE faz uma análise acertada quando aponta a passagem de quatro reitores em somente três anos na universidade como sintoma de crise interna. A mantenedora vem adotando medidas que diminuem cada vez mais a autonomia universitária, como a não aprovação de orçamento anual da instituição há quatro anos.

É correta a discordância da entidade da forma como a troca foi feita: arbitrariamente, durante período de férias, evitando mobilização estudantil. A entidade também aponta que o estudante não tem direito à voz e não é perguntado sobre as decisões acadêmicas. De fato, a mantenedora não o faz, e nem mesmo a universidade, vale lembrar. E isso não é por acaso. O estudante, tanto de universidade pública quanto de privada, é o lado mais fraco nos espaços institucionais, comandados por uma classe de empresários e/ou agentes do Estado ou aliados a ele. Por isso, para se fazer ouvir, não pode depender de uma gestão institucional específica. O resultado disso é o desmoronamento do que foi construído, ou acordado, com uma mudança de cargo. Para se assegurar o peso da vontade estudantil, faz-se preciso organizar os estudantes de forma ampla e independente.

A luta pelo direito à eleição do reitor deve ser levada adiante. Assim, estudante, professor e funcionário estarão mais representados na instituição. É com certeza um passo importante para o movimento estudantil. Entretanto, não é o suficiente, quando se faz uma análise do funcionamento da universidade e das disputas de classe envolvidas.

Mesmo que o reitor seja eleito de forma mais democrática, em se tratando de universidade particular, permanece submisso à mantenedora ocupada por homens de negócio ou “representantes da comunidade”. O cargo continuará fragilizado ante o poder econômico da UBEC, de ordem privada, e inclusive poder político administrativo, como ficou evidente. É inerente a esse cargo tentar amenizar as lutas internas – estudantis e trabalhistas - e assegurar os privilégios de empresários e políticos a favor do Estado Burguês. Caso não cumpra esse papel, é retirado do cargo. Se for preciso, a mantenedora o fará via processos anti estatutários, como aconteceu. Parafraseando Karl Marx quando diz que “o Estado é o comitê executivo da burguesia” (Manifesto do Partido Comunista), pode-se dizer que a reitoria de universidade privada é o comitê executivo dos empresários. Importante lembrar que se trata da única universidade particular do DF, com 17 mil matriculados.

Logo, a luta pelo direito à eleição para reitor deve estar ligada à luta pela federalização da universidade. Livres da propriedade privada de um empresário ou de um grupo deles, a autonomia estudantil e universitária terá seu início. Tornar pública a universidade é a condição inicial.

Nota de Repúdio do DCE da UCB - Democracia Já! - ao processo de escolha do novo reitor.

São os estudantes unidos que podem conquistar essas reivindicações e o que for decidido pelo conjunto. Uma vez organizados, torna-se evidente como trocas no cargo da reitoria não provocam grandes diferenças. É preciso acabar com as ilusões na reitoria e nos conselhos institucionais, como CONSUN e CONSEPE, como canal decisivo de disputa. O poder dos estudantes está principalmente na mobilização. Citando Lênin, dirigente do partido bolchevique da Revolução Russa de outubro de 1917, “O proletariado tem como única arma, na sua luta pelo poder, a organização”. Considerando que os estudantes farão parte da classe trabalhadora amanhã, a exigência de organização e disputa política também se faz presente na luta de hoje.

Para construção dessa organização, o corpo estudantil já elegeu sua representação: a direção o DCE. Cabe a ela conduzir essa tarefa. Primeiramente, a mobilização deve acontecer para informar a base dos processos que chegam ao conhecimento da direção, justamente por ser a representação estudantil. Assim a entidade estará representando os estudantes nas suas lutas, não apenas os substituindo. É preciso organizá-los em suas reivindicações reunindo-os, apresentando propostas avançadas, tirando deliberações e fazendo-os agir aos milhares.

Esse processo traz uma exigência organizacional básica: a realização de assembleias estudantis com participação em peso do estudante. Realizá-las não é tarefa fácil. Mas, não podemos desanimar! Assim como em diversas universidades pelo país e mundo afora, a disposição do DCE deve ser incansavelmente essa: buscar os estudantes. É questão de disputá-los com as pressões diárias do capitalismo.


Referências:

Matéria publicada pelo Correio Braziliense impresso, em 18 de julho.

2 comentários:

  1. Boa matéria Clítia Daniel, só que eu não consegui perceber de fato oq achastes da mudança e da forma como foi feita, só vi crítica ao DCE. Tenho algumas ressalvas: 1. "para se fazer ouvir, não pode depender de uma gestão institucional específica" o ME da UCB NUNCA dependeu de qualquer gestão institucional, em algum momento durante a trajetória do ME os interesses coincidiram com o da antiga reitoria e não poderíamos abandonar a luta pq era tbm a luta da reitoria, ou seja, a autonomia universitária. A nota é em repúdio a forma como a substituição se deu, em momento algum o DCE defende a figura desse ou daquele reitor, reivindica a participação nos espaços de decisão; 2. "Mesmo que o reitor seja eleito de forma mais democrática, em se tratando de universidade particular, permanece submisso à mantenedora". Querida mesmo as federais tem mantenedoras, NÃO EXISTE UNIVERSIDADE SEM MANTENEDORA, então a federalização irá trazer sem dúvidas benefício, mas não o de não existir uma mantenedora, isso é impossível; 3. "É preciso acabar com as ilusões na reitoria e nos conselhos institucionais, como CONSUN e CONSEP, como canal principal de disputa." Uma errata o nome é CONSEPE. O ME jamais se iludiu com reitoria, se alguém teve essa impressão está equivocada, acho que já expliquei no ponto 1. Agora a participação nos conselhos é fundamental, uma vez que como prevê o Estatuto estas são as instâncias máximas de decisão e quanto maior a representação discente nesses espaços maior será a voz estudantil na instituição; 4. "se trata da maior instituição privada de nível superior do DF, com 17 mil matriculados". A Católica não é maior pelo universo de estudantes, o IESB possui 18 mil, o diferencial da UCB é ser a ÚNICA UNIVERSIDADE privada do DF. Enfim, o DCE está aberto para a participação de todo e qualquer estudante devidamente matriculado que tenha vontade para construir o ME, a gestão é horizontal e democrática, não temos líderes e estamos precisando de pessoas que tenha ousadia e disponibilidade. Vc está convidada, venha soma como o DCE-UCB!!!

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  2. http://www.juventudemarxista.com/2014/07/respondendo-uma-companheira-da.html?m=1

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