segunda-feira, 28 de julho de 2014

Respondendo a uma companheira da Universidade Católica de Brasília


Clítia Daniel

Após publicação do texto “UCB tem novo reitor. O que muda?” no blog da Juventude Marxista, uma das diretoras do Diretório Central dos Estudantes – Democracia Já! – levantou alguns questionamentos, o que motivou a elaboração desse breve texto com alguns dos pontos levantados e as devidas explicações. Pontos cruciais para o enriquecimento da discussão, que tem como objetivo fortalecer o movimento estudantil na Universidade Católica de Brasília.



1. “Agora a participação nos conselhos é fundamental, uma vez que como prevê o Estatuto estas são as instâncias máximas de decisão e quanto maior a representação discente nesses espaços maior será a voz estudantil na instituição;”

A participação nos conselhos possui importância apenas para que a entidade possa saber o que acontece nas vias institucionais. É preciso ressaltar a necessidade de se acabar com as ilusões e confiança demasiada nos conselhos como principal canal de voz do estudante, e também acabar com a crença na inviolabilidade do Estatuto da universidade. Já vimos que, se for de seu interesse, a mantenedora passa por cima do que for preciso.

Para a voz estudantil ser ouvida, não são 3, 4 ou 10 cadeiras nesses conselhos que irão fazê-lo, mas milhares de estudantes completamente inteirados de todos os processos, responsabilidade do DCE, e convictos de suas reivindicações. Há alguns meses, quando os estudantes lutavam contra a Reestruturação Acadêmica, foram em massa para as ruas ocupar o Pistão Sul e também apareceram em número expressivo em duas assembleias gerais no dia 15 de abril, organizadas pela Comissão de Organização da Assembleia Geral. O estudante deve se organizar nos seus espaços de luta, e não se adaptar ao limitado número de cadeiras nos espaços institucionais.

2.  “Mesmo as federais tem mantenedoras, NÃO EXISTE UNIVERSIDADE SEM MANTENEDORA, então a federalização irá trazer sem dúvidas benefício, mas não o de não existir uma mantenedora, isso é impossível;”

Vale apontar que a universidade pública também possui mantenedora, entretanto, substancialmente diferente das de universidade privada. As mantenedoras de universidade pública são abastecidas nada menos por verba pública, ou doações de setores privados ao governo (1). O Estado também pode criar fundações públicas para esse fim. Logo, o dinheiro dessas mantenedoras não vem de mensalidades, sob administração de empresários. E sim do Tesouro Nacional, sob responsabilidade do Estado. E, como socialista, é preciso apontar que esta é a forma como deve acontecer o mantimento de toda instituição de ensino, em qualquer nível, para que seja pública, estatal, federal e gratuita. Podemos ainda concluir que o verdadeiro mantenedor da universidade pública é o trabalhador, que alimenta a arrecadação tributária. Isso confere a ele ainda mais razão para reivindicar pela democratização do espaço e por uma universidade integrada e voltada para o coletivo.

Obviamente, até mesmo as universidades públicas, estatais e federais estão submissas aos interesses que norteiam essa sociedade, os interesses do capital. Inclusive, acontece de universidades públicas terem pesquisas acadêmicas financiadas por empresas privadas. Indústrias tabagista, alimentícia e farmacêutica manipulam as pesquisas e resultados para atender aos seus interesses, e não aos interesses da classe trabalhadora. Mas, é preciso, mesmo assim lutar pela federalização, pois universidade federal constitui-se espaço bem mais avançado para maior garantia dos direitos estudantis e trabalhistas. Nesses espaços, a classe burguesa não será alimentada com mensalidades e ali a educação não fará parte do mercado de livre concorrência diretamente, pois, sendo o mantenedor o poder público, teremos direito e dever de exigir o direcionamento da produção acadêmica para os trabalhadores, que pagam a maior parte dos impostos, e não para os empresários.

Sabendo das influências inevitáveis da ordem vigente, seguindo uma linha marxista trotskista, sabe-se que a real emancipação da juventude e dos trabalhadores virá com o fim da propriedade privada em todos os setores sociais, em todos os países e continentes. A produção, a força de trabalho e a força intelectual estarão emancipadas desses lugares privados e passarão a ser coletivos.

3. “Muito boa a teoria, volto a dizer sonhar é tão bom... Fazer um parte da prática nos faz perceber que Assembléia não é como fazer uma calourada onde se mobilizam um número considerável de estudantes, Assembléia em intituição pública é complicada em privada então, nem se fala, principalmente se for pra entrar membro na gestão... A teoria é linda, infelizmente a prática é outra...”

Talvez seja preciso atualizar a companheira do contexto mundial e nacional e das práticas que envolvem constantes transformações decorrentes também do movimento estudantil e da ação da juventude.

A situação atual de crise do capitalismo, com estopim no estouro da bolha imobiliária os EUA em 2008, causa degradação das condições de vida da classe trabalhadora, que chega a níveis insuportáveis, e, com a crise da produção, milhares de postos de trabalho são excluídos em todo o mundo. O resultado é a alta do desemprego, principalmente para uma juventude que não consegue ingressar no mercado de trabalho. A consequência disso são levantes de massas e da juventude por todo o mundo. O movimento estudantil ganha mais força. Foi exatamente o que aconteceu na UCB.

Algumas fotos de levantes pelo mundo:

Massas voltam às ruas na Turquia em 12 de março, após morte de adolescente atingido por bomba de gás lacrimogênio, em manifestação contra o governo Erdogan.

Mais de 1 milhão saem às ruas na Coréia do Sul em protestos no primeiro dia de greve geral.

No Brasil:

Manifestações tomaram as ruas pelo Brasil contra aumentos das tarifas de ônibus e contra repressão policial.

Os protestos também reivindicavam melhoras no padrão de vida.

Na UCB não foi diferente:

Manifestação dos estudantes da UCB em abril de 2014 contra sucateamento do ensino.

Assembleia Geral dos Estudantes em 15 de abril, período matutino, que deliberou de forma unânime o cancelamento total da Reestruturação Acadêmica.

Assembleia do dia 15 de abril, período noturno.


A organização se faz necessária também para além dos muros da universidade. Muitas das nossas reivindicações estão mescladas às condições sociais ao nosso redor, como a questão do transporte, da educação privada cada vez mais desqualificada e a dificuldade de acesso à educação pública de nível superior. Por isso, a Juventude Marxista impulsiona a campanha “Público, Gratuito e Para Todos: Transporte, Saúde e Educação! Abaixo a Repressão”, a qual abarca todas as problemáticas dos serviços públicos, e coloca a necessidade de uma política de real atendimento das demandas do trabalhador e da juventude, a começar pelo não pagamento da dívida interna e externa, que consome cerca de metade do orçamento da União. A campanha é um instrumento de organização da juventude nas suas reivindicações mais sentidas.




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