quinta-feira, 3 de julho de 2014

Militância estudantil e o papel dos marxistas (Parte 1): aprender com a história e dialogar com a massa dos estudantes

Publicado em Marxist Theory
Autor: Adam Booth (2013) (1) 
Tradução: Pedro Bernardes Neto

Tem sido um período ocupado dentro da vida política estudantil nos últimos meses, visto que estudantes de todos os espectros políticos têm realizado campanhas por cargo dentro dos sindicatos estudantis (2), culminando na conferência da UNE essa semana.  Em alguns locais, os candidatos de esquerda tem tido vitórias; em outros, candidatos mais à direita tem vencido (geralmente sob a bandeira de serem “politicamente neutros” ou “apolíticos”). Estas campanhas provêem um bom pano de fundo para o segundo artigo em nossa série sobre o movimento estudantil, na qual analisamos a questão mais ampla da militância estudantil e o papel dos Marxistas.
            Como nota pessoal, esse ano marca uma importante virada para o autor do presente artigo. Depois de oito anos sendo estudante – quatro anos gastos como estudante de graduação e quase mais quatro trabalhando em pesquisas de pós-graduação – eu logo estarei finalizando meu período na universidade. Sete destes anos foram gastos como um Marxista ativo envolvido no movimento estudantil na Universidade de Cambridge e como militante da Socialist Appeal.



Memória histórica

O envolvimento no movimento estudantil é para a maioria, contudo, limitado a apenas poucos anos. Essa renovação relativamente repentina dentro das universidades tem tanto um efeito positivo quanto negativo no movimento estudantil. Por um lado, a nova camada de calouros que inicia na universidade a cada ano provê uma constante corrente de jovens que não tem experiência nas derrotas e os quais estão abertos para idéias radicais e revolucionárias, servindo para renovar e revigorar o movimento estudantil. Por outro lado, contudo, essa virada também gera uma descontinuidade dentro do movimento estudantil. A falta de experiência nas derrotas também significa que o movimento estudantil está constantemente tendo que reaprender as lições que as gerações passadas viveram. Esse problema se torna mais notável para aqueles que ficam na universidade por longos períodos; táticas similares são tentadas por sucessias aglutinações de estudantes, mas sem nenhuma experiência dos resultados das tentativas anteriores.
Esse problema não é, claro, unicamente do movimento estudantil. As categorias da classe trabalhadora são constantemente renovadas com novos trabalhadores, os quais em sua maioria somente aprendem a necessidade da organização e ação por meio de suas próprias experiências. Por meio dos processos da luta de classes, novas seções da classe dos trabalhadores se filiam aos sindicatos e realizam greve em defesa de suas condições. A partir da luta por reformas parciais e vitórias, os trabalhadores se tornam conscientes da necessidade de uma mais ampla transformação da sociedade do seu próprio poder.
Quanto a isso, o papel de uma organização revolucionária é frequentemente se referir a isso como uma memória histórica da luta de classes. George Santayana, o filósofo americano, declarou que “ele, que não aprende da história, está condenado a repeti-la”. Isso é bem verdade, mas a memória individual tem seus limites. A tarefa de uma organização revolucionária é agir como uma memória coletiva, traçando as lições de todos os movimentos e lutas passadas, e generalizar essa experiência. Isso é o que é entendido como “teoria” no sentido Marxista – a experiência generalizada e lições do passado, o que deve ser aplicado às condições concretas de uma dada situação particular hoje para fins de determinar o melhor curso de ação.

Atalhos

            Estudantes pesquisadores na universidade são ensinados que antes de realizar qualquer pesquisa original, eles devem primeiro realizar uma revisão teórica (bibliográfica), e somente então eles estarão construindo sobre as experiências coletivas das gerações anteriores, começando do ponto mais alto do conhecimento da humanidade e ficando sobre os ombros dos gigantes. Qualquer estudante que arrogantemente decidisse ignorar uma revisão teórica preliminar, rapidamente perceberia que eles estariam perdendo tempo por perseguirem atividades já comprovadamente infrutíferas e provavelmente desistiriam em completa frustração.
            Mas muitos destes bem-intencionados militantes não têm a mesma abordagem metodológica em relação ao movimento estudantil como teriam em seus próprios estudos. Muito frequentemente no movimento estudantil, existe a tendência entre os manifestantes a acreditar que a história começa e termina com eles. Ao contrário de aprender com as lições do passado e trabalhar para construir uma base de militantes educados que conseguem argumentar de modo confiante em favor das idéias socialistas, muitos entusiastas e estudantes radicalizados tentam buscar uma mudança imediata. Ao contrário de construir pacientemente uma base de apoio por alguns anos em favor das idéias socialistas entre uma mais ampla população de estudantes, muitos militantes se frustram e procuram atalhos.
            Tal mentalidade é compreensível: como mencionado anteriormente, a maioria dos estudantes estão na universidade por somente um período limitado de tempo, e gostariam de ver uma mudança tangível durante seu período lá. Além disso, a natureza da vida universitária – com seu ambiente dinâmico que permite aos jovens entrar em contato com novas idéias, sem mencionar a dificuldade crescente que os estudantes enfrentam em relação às taxas (universitárias), trabalhos e moradia – gera o desenvolvimento de idéias radicais entre os estudantes. (É por essa razão que os estudantes são frequentemente citados como um “barômetro” para as pressões sociais)
            Quando a questão é transformar a sociedade, contudo, não existem atalhos. Qualquer tentativa de rodear a tarefa necessária de fazer vencer sobre as massas as idéias socialistas irá inevitavelmente acabar ou no oportunismo ou no sectarismo ultra-esquerdista. Roma não foi construída em um dia e tentar artificialmente criar uma mudança massificada em base individual ou de menor escala nos poucos anos que alguém tem na universidade é um proverbial beco sem saída. As intenções de tais indivíduos e pequenos grupos são, é claro, sempre as melhores; mas como o ditado diz, de boas intenções o inferno está cheio.
            Em meu período na universidade tenho visto muitos exemplos disso – militantes promissores que alcançam conclusões radicais rapidamente, mas que então falham em entender como se conectar com a massa dos estudantes. O resultado final é normalmente um de dois possíveis: ou as pessoas interessadas tentam conquistar cargos políticos – sem primeiro ganhar qualquer base de suporte – e se tornam desmoralizadas quando perdem; ou os militantes envolvidos aumentam a distância deles mesmo para a massa dos estudantes por meio de um processo de ações radicais, novamente sem colocar no necessário alicerce para conquistar a maioria das pessoas à necessidade da radicalização. Em ambos os casos, o resultado provável é a desmoralização e isolamento da massa dos estudantes.

Trabalho em longo prazo

            Como Marxistas, é claro que queremos ver uma mudança – nós queremos transformar radicalmente a sociedade! Mas devemos sempre ter um senso de proporção e compreender que como indivíduos ou grupos menores, nós conseguiremos atingir muito pouco. Também importante, devemos compreender que não é a propaganda ou as nossas ações enquanto indivíduos que irão fazer com que a massa dos estudantes se torne radicalizada e realize a ação.  Os 50 mil estudantes que protestaram na manifestação de massa em 2010 não compareceram por conta de qualquer leitura de Marx ou Lênin, nem simplesmente por conta dos esforços dos militantes existentes. Ao contrário, tais movimentos de massa são o resultado de condições objetivas – a martelada de fatos tais como o aumento das anuidades nas universidades e cortes contínuos, e o efeito desses fatos na consciência das pessoas comuns. Novamente, qualquer tentativa de artificialmente criar uma consciência radicalizada por meio de ações individuais – substituindo a militância de um indivíduo ou pequeno grupo em favor da participação nos movimentos de massas – irá inevitavelmente levar ao isolamento e desmoralização.
            A tarefa dos socialistas e Marxistas no movimento estudantil, portanto, deve ser uma mais de longo prazo de construir uma base nos campi universitários e conquistar suporte para os ideais socialistas. Tal projeto irá, em muitos casos, tomar muito mais tempo do que o tempo de universidade de qualquer indivíduo.  Mas construindo uma base sólida de militantes que são educados em idéias Marxistas e as lições necessárias das lutas passadas, uma coletiva, histórica memória consegue ser construída, preparando o terreno para a habilidade de realizar um impacto decisivo e ter um papel de liderança nas lutas que virão.
            Construindo militantes educados – os “quadros” – que são treinados na teoria Marxista e como aplicá-la em uma dada situação concreta é a primeira tarefa de uma organização revolucionária na maior parte dos períodos da história. Por sua vez, a tarefa destes quadros é, nas palavras de Lenin, “explicar pacientemente” – intervir nas lutas em seus locais de trabalho ou campi universitários e conectar demandas particulares por certas reformas à necessidade geral da luta pelo socialismo. Com o passar do tempo, por meio de consistentemente colocar a frente uma análise correta dos eventos e uma programa de ação os Marxista conseguem conquistar a confiança e respeito daqueles ao seu redor. Esse é o real significado da liderança – conquistar autoridade política vencendo a discussão política. Liderança é conquistada, não simplesmente declarada.
Pela construção e intervenção paciente por um período mais longo de tempo, os Marxistas conseguem colocar eles mesmos numa posição a prover essa importante liderança quando os movimentos maiores explodirem. Dado um número suficiente de quadros educados, armados com as idéias corretas, presentes na hora e local corretos, e operando da maneira correta, os Marxistas conseguem, em tais situações, ter um papel decisivo entre o sucesso ou fracasso.

A necessidade da teoria

            Deve-se aplaudir de pé o fato de existirem estudantes enérgicos, radicalizados que queiram ser politicamente ativos e lutar por uma mudança na sociedade. Mas nem todas as formas de atividade são iguais. Algumas buscas serão mais frutíferas que outras, baseado em uma situação objetiva e condições materiais em dado local e em dado período. Fazendo uma analogia com o mundo da física: a energia contida no vapor tem um bastante extenso potencial a criar trabalho útil, e com o conhecimento de termodinâmica, tal energia pode ser transformada em uma poderosa fonte de impulso, movimento, e eletricidade. Mas na ausência de tal conhecimento, e sem nenhuma direção, a energia no vapor será dissipada e desperdiçada.
            Neste sentido, a teoria Marxista não é algum tipo de opção extra; ela é uma ferramenta vital de qualquer revolucionário que deseja realizar uma mudança no movimento. A Teoria sem ação é estéril – isso é verdade; mas a ação sem teoria é cega. Como Lenin escreveu, “sem teoria revolucionária não pode existir movimento revolucionário”. Na ausência de teoria, não existe perspectiva para o que é necessário e, portanto, não há estratégia de como proceder; um apropriado plano de ação em longo prazo é substituído com uma abordagem empírica, no qual se tropeça de um evento ao outro, constantemente sendo pego de surpresa, e se torna incapaz de reagir corretamente.
            Como Trotsky dizia, “teoria é a vantagem da previsão sobre a perplexidade”. Com respeito a isso, a teoria Marxista é como um compasso, permitindo que nos orientemos corretamente durante um período de tempestade quando é fácil que sopre fora do curso por eventos turbulentos, assimilados por faíscas superficiais, ou distrações por tendências efêmeras. A teoria nos fundamenta, nos organiza em um caminho estável, e nos dá um enorme senso de otimismo sobre as perspectivas da revolução mundial. Não existe substituto para tal poderosa arma.
            A tarefa dos revolucionários dentro do movimento estudantil, portanto, não é simplesmente ser ativo, mas avaliar qual atividade é necessária e construir forças que são capazes de alcançar tais situações. Isso, por sua vez, exige discussão política considerando a situação objetiva encarando o movimento e as tarefas e exigências resultadas disso.
            Existe uma tendência no movimento estudantil – especialmente entre as camadas mais avançadas e radicalizadas – a se tornar frustrada e impaciente e a substituir a discussão política por constante ação e atividade. Tal ação direta, sem uma perspectiva por trás dela, se torna simplesmente uma ação sem direção, e se torna um fim em si mesma, ao contrário de um meio para um fim. Essa tendência é especialmente predominante quando existe um refluxo no movimento e a retirada das massas das atividades. Novamente, tal situação frequentemente aponta a individuais e pequenos grupos substituindo suas próprias ações individuais pela atividade das massas.
            Similarmente, pode acontecer de, na ausência de qualquer perspectiva política, uma tendência simplesmente focar em ações e problemas imediatos que o movimento enfrenta, ao contrário de formular qualquer visualização em longo prazo do que é necessário. Em tais situações, cada combate é elevado a toda proporção em termos de sua relevância global; questões políticas mais amplas são deixadas em segundo plano em favor de tarefas organizacionais; e lutas isoladas contra cortes particulares e ataques são combatidas sem qualquer conexão ao quadro geral da crise capitalista, luta de classes, e a necessidade de uma alternativa econômica.
            Tal abordagem inevitavelmente tende ao simples reformismo, no qual a luta pelo socialismo é relegada a um ponto distante em favor de tarefas imediatas que o movimento encara. Neste sentido, pode ser visto como o ultra-esquerdismo e sectarismo em termos de abordagem - i.e. o uso de atividade constante e ação em isolamento da massa dos estudantes – pode tão frequentemente existir ao lado do reformismo e oportunismo em termos de demandas políticas – i.e. tentando vencer eleições e conquistar cargos dentro do movimento estudantil sobre um aguado programa de demandas reformistas que não são conectadas em qualquer caminho a questões políticas mais amplas – dentro dos mesmos indivíduos e grupos de estudantes militantes.
            O objetivo dos Marxistas deve ser sempre conectar o particular ao geral; combater por cada reforma e medida progressista, mas sempre demonstrar como essas lutas particulares por reformas estão conectadas às necessidades gerais de transformação da sociedade. Esse é o método que Trotsky descreve no Programa de Transição, necessidade “a ajudar as massas no processo da luta diária a encontrar uma ponte entre as demandas atuais e o programa socialista da revolução”.

Olhando para fora (turning outward)

            Atividade e ação são vitais na parte dos socialistas dentro do movimento estudantil. De fato, um Marxista que se limita a somente comentar os eventos seria um de pouco valor. Como o próprio Marx escreveu: “os filósofos tem somente interpretado o mundo; o objetivo, contudo, é transformá-lo”. Mas a atividade dos socialistas dentro do movimento deve ser voltada para o lado de fora em todos os momentos e utilizada para conectar idéias Marxistas tão amplamente junto às camadas de estudantes quanto possível.
            Novamente, existe a tendência – especialmente em tempos de refluxo do movimento – dos estudantes militantes a se colocarem para dentro e simplesmente discutir entre eles, ao contrário de se virar para fora e tentar fazer crescer a consciência e aumentar a camada politicamente ativa dentro do movimento. Tais grupos de militantes que olham para dentro podem frequentemente se tornar isolados e removidos da massa dos estudantes, que são facilmente alienados pelo o que parece ser simplesmente uma “panelinha de esquerda” de amigos na perspectiva dos estudantes comuns que estão fora destes grupos.
            A linguagem e os métodos utilizados em tais grupos frequentemente somente servem para criar uma percepção adicional de alienação para aqueles que tentam participar e se envolver; nomes, termos, e acrônimos são utilizados sem qualquer explicação ou contexto; “piadas internas” geralmente impregnam entre a camada mais experiente; e estranhos processos organizacionais e sinais de mãos somente atuam como uma adicional barreira à participação.
            Uma vez formada, a lógica de uma panelinha militante que somente olha pra dentro pode servir para agravar o isolamento de tal grupo. Por exemplo, ao contrário de tentar se virar para fora, envolver a massa de estudantes na tomada de decisões, e conquistar pessoas para a necessidade de ações diretas – tais como ocupações – sobre base política, a ação se torna uma “propaganda do ato”, que somente serve mais a frente para alienar a massa dos estudantes dos tais grupos militantes.
            Os Marxistas devem sempre começar com a política da situação, e ações deve fluir da análise política. Nós não defendemos ocupações uniformemente em todas as situações simplesmente pela aparência e sentimento de militância e radicalidade ou porque queremos criar um bom espaço no qual as pessoas possam discutir – i.e. “socialismo em um quarto”. Ao contrário, defendemos certas ações concretas em certas situações concretas onde tais ações podem ajudar a elevar o nível de consciência e dar aos estudantes uma percepção de seu próprio poder. Em qualquer caso, nós sempre conectaríamos – e deveríamos – qualquer ocupação individual de estudantes à necessidade por uma luta política mais ampla, envolvendo a UNE (União Nacional dos Estudantes) e o mais amplo movimento dos trabalhadores.

Notas:

(1) Militante da Socialist Appeal, seção Inglesa da Corrente Marxista Internacional (CMI). 
(2)O termo utilizado pela autor é student union. Nesta tradução optou pelo termo mais literal, sindicato estudantil, que é o termo utilizado para as entidades dos estudantes em muitos locais da europa como Espanha e Portugal.

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