quinta-feira, 10 de julho de 2014

A ocupação estudantil em Araraquara e a necessidade de uma militância organizada


Rafael Carneiro - Estudante de Economia da UNESP Araraquara 

No dia 30 de maio os estudantes da FCLAr – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara – ocuparam o prédio da Diretoria, sob as demandas da revogação da expulsão de 38 estudantes do programa de moradia estudantil, do aumento das bolsas-auxílio as quais sofrem cortes recorrentes e pelo fim da judicialização do movimento estudantil – retirada dos processos judiciais contra os estudantes, os quais têm sofrido repressão no campo administrativo da faculdade e no campo judicial, levado a cabo pelo ministério público.
A ocupação se fez necessária dada a falta de diálogo da diretoria frente às demandas estudantis, o descaso com tal prioridade se mostrou quando a reunião marcada pela direção não estava presente o vice-diretor – responsável pelos programas de auxílio e permanência – e a própria assistente social. O resultado final foi não haver um acordo cabível e a ocupação continuar. E no momento posterior, cobrado de novas negociações com todos presentes os responsáveis pelo programa de permanência estudantil, o vice-diretor, irritado, xingou os estudantes de “invasores de merda”.

Foi então que às 5h da madrugada do dia 20/06, 3 semanas após a assembleia estudantil que deliberou a ocupação, os estudantes foram surpreendidos pela presença da tropa de choque da polícia, para o cumprimento do mandado de reintegração de posse. Os estudantes então foram levados ao 4º DP de Araraquara, onde passaram pelas medidas administrativas da polícia civil e liberados após algumas horas.

Vale lembrar que não é de hoje que a truculência da direção é usada para reprimir estudantes que buscam o exercício pleno da democracia na universidade pública, combate à privatização, melhores políticas de permanência estudantil, melhorias na qualidade do ensino e a inclusão dos trabalhadores na própria universidade. Em 2007 houve uma primeira ocupação em Araraquara, a qual sofreu forte repressão policial, sendo a primeira universidade pública a ter a entrada da polícia para a repressão depois do fim do regime militar.

Vale lembrar que, mais recentemente, em Julho de 2013, 120 estudantes da UNESP foram praticamente seqüestrados pela PM após ocupação da REItoria dessa Universidadepor demandas dos estudantes. Utilizamos a palavra seqüestro pois não houve nem mandado, nem oficial de justiça no momento da reintegração de posse, somente um bando de homens fardados retendo estudantes. Todos estão respondendo sindicância com risco de expulsão, o que provavelmente ocorrerá com os estudantes de Araraquara.

Um agravante é que, alguns destes 15 estudantes , estão em situação ainda pior, por terem participado da luta em 2013, o que dará ainda mais brechas para a repressão da REItoria.
 

A NECESSIDADE DA MILITÂNCIA ORGANIZADA
Mas o que dizer desse acontecimento político quanto às táticas utilizadas pelo grupo? Percebeu-se desde o início da ocupação que não foram apresentadas algumas diretrizes básicas de ação do grupo, tal qual elucidarei a seguir, e que levaram a alguns erros táticos sobre como se deu a ocupação e o impacto ideológico que se teve para com a classe estudantil em sua totalidade. Assim como segue a frase de Lênin em “O Que Fazer?”: “Uma propaganda apresenta muitas ideias para uma ou poucas pessoas; uma agitação apresenta somente uma ou poucas ideias, mas as apresenta para uma massa de pessoas.” Então o foco é, sob uma agitação bem fundamentada e coesa, traduzir todos os sentimentos dos estudantes para que floresça seu pensamento de classe e a sua condição revolucionária. É factual de que a forma como foram incluídos os 21 pontos de pautas que se tornaram palavras de ordem acabaram por não ecoar dentre a massa da classe estudantil, visto que apenas poucos estudantes, cerca de 15, estavam no local no momento da reintegração de posse, e não a mesma massa que lotava as assembleias gerais da Unesp Araraquara e que aprovara a mesma ocupação da diretoria.

A forma da mensagem que atinge aos demais estudantes deve ser mais importante do que a mensagem que você envia ao seu opressor. Quando a agitação é o meio, a propaganda é o fim. É esta propaganda que promove a reflexão e o pensamento de classe, que acende a chama revolucionária e que, por fim, traduz todos os anseios dos oprimidos e os levanta para a luta, identificando-se com suas bandeiras, por mais simples que elas sejam – transporte, saúde, educação, habitação, etc. –, serão caminhos abertos e lúcidos para uma transformação. Dada a importância do efeito de propaganda de uma agitação, segue um trecho da fala de Lênin:
“Inseparavelmente conectada com a propaganda está a agitação dentre os trabalhadores, que naturalmente vem na linha de frente nas condições políticas atuais na Rússia e no presente nível de desenvolvimento das massas de trabalhadores. A agitação dentre os trabalhadores significa que os SocialDemocratas [marxistas] participam em todas as manifestações espontâneas da luta de classes, em todos os conflitos entre a classe trabalhadora e os capitalistas quanto às questões de jornada de trabalho, salários, condições de trabalho etc. Nossa tarefa é fundir nossas atividades com as questões práticas e diárias da luta de classes, para ajudar os trabalhadores a entender essas questões, para atrair a atenção dos trabalhadores para os mais importantes abusos, a ajudá-los a formular suas demandas aos patrões de modo mais preciso e prático, a desenvolver a solidariedade entre a consciência dos trabalhadores, consciência dos interesses comuns e a causa comum de todos os trabalhadores russos enquanto uma unida classe trabalhadora que é parte de um exército internacional do proletariado.” - (“As tarefas da Socialdemocracia russa”, 1897)
Ao escrever frases que satirizam os professores e que não possuem valor algum na promoção da aglutinação de forças com a classe estudantil comete-se um erro, quando não ocorre o efeito oposto, a divisão da classe estudantil, quando esta discorda das táticas e dos meios utilizados pelo grupo que iniciou a agitação. Frases como: “Eu, Arnaldo Cortina, declaro que a internacionalização é mara! Ano passado passei minhas férias em Paris! Aquela cidade é tudo de bom!...” são totalmente desagregadoras, infantis e de caráter homofóbico pela forma da escrita, é inadimissível que sejam feitas tais ações em militância organizada. Essas frases têm efeito inverso na propaganda aos demais estudantes, que esvaziaram seus espaços e não procuraram se solidarizar com a luta, com ênfase no desfecho da ocupação, onde os demais estudantes apenas tinham críticas a realizar e poucos elogios a fazer.

O que se viu em relação ao resultado final da ocupação foi a urgente necessidade de profissionalisar a militância, torná-la organizada, praticar o centralismo democrático: “Toda liberdade na discussão e toda a unidade na ação”. Evitar seriamente o consumo de álcool e drogas durante a ação profissional de um militante, que está fora de sua vida íntima no momento em que se entrega à luta, às causas sociais. Pois é sabido que o militante encontra as mais variadas adversidades quando está em um ambiente hostil como uma ocupação de diretoria e, estar sóbrio e atento, é fundamental. É preciso também não cometer os erros das intervenções desastrosas, as pixações que não agregam a classe estudantil, as práticas infantis como colocar fezes na caneca do diretor da faculdade, o que só veio a prejudicar os camaradas presentes na ocupação por radicalizar as ações da diretoria ao nível mais alto possível, o de expulsão, e ao mesmo tempo, descredibilizar o próprio apoio tão necessário neste momento aos estudantes da ocupação pela sua própria classe.

Nós apoiamos totalmente os estudantes em luta, mas também entendemos que é nocivo ao próprio movimento a falta de organização da militância, o que vem a corroer os próprios quadros da militância estudantil, desperdiçados pelas constantes ações diretas individuais e suas próprias consequências diretas individuais.



Pelo fim das prisões e processos contra todos que lutam! Liberdade aos condenados! Abaixo a repressão!

A Esquerda Marxista, seção Brasileira da Corrente Marxista Internacional, promove a Campanha público, gratuito e para todos: transporte, saúde e educação! Abaixo a repressão! Em que, além da luta pelos serviços públicos, foca no combate à repressão aos movimentos sociais e demais organizações dos trabalhadores. Assim, defendemos incondicionalmente os 15 estudantes que foram presos e que serão processados pela UNESP. Consideramos inaceitável que estudantes sejam presos e tratados como criminosos por lutar, como diz nosso manifesto:

Não podemos aceitar que a juventude pobre e trabalhadora continue a ser aterrorizada e assassinada nas periferias de todo o país pela Polícia Militar. Também não podemos aceitar que todas as vezes que decidimos levantar a cabeça e erguer nossas vozes contra as injustiças, que decidimos protestar e nos manifestar, o Estado coloque todas as chamadas “forças de segurança” para nos reprimir. Tratam-nos como criminosos, chegando ao absurdo de nos acusar de “formação de quadrilha”, “vandalismo”, etc. Não! Não somos criminosos! Não aceitamos que continuem a criminalizar as lutas sociais! Exigimos liberdade de expressão e direito à livre manifestação! Exigimos que todos os manifestantes presos sejam soltos, que todos os processos contra manifestantes sejam retirados! Que todas as condenações sejam anuladas! Nenhum ativista preso, nenhum militante político criminalizado!

Exatamente por isso impulsionamos abaixo assinado para o Anteprojeto de Lei contra a criminalização dos movimentos sociais, que visa anistiar, anular e revogar todas as condenações, ações penais e inquéritos policiais contra pessoas e lideranças dos movimentos sociais, sindicais e estudantis que participaram de greves, ocupações de fábricas, ocupações de terras, ocupações de escolas, manifestações e atividades públicas, e que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN). Esse anteprojeto será apresentado, elaborado pela Esquerda Marxista, será levado ao congresso nacional pelo Dep. Federal Renato Simões que já concordou em apresentá-lo.

É imprescindível a unidade de todos contra a repressão!

FIM DAS PRISÕES E PROCESSOS AOS ESTUDANTES E TRABALHADORES DOS MOVIMENTOS SOCIAIS!

LIBERDADE A TODOS OS CONDENADOS POR LUTAREM POR DIREITOS!

REVOGAÇÃO IMEDIATA DAS LEIS REPRESSIVAS!

ABAIXO A REPRESSÃO!

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