quinta-feira, 29 de maio de 2014

A intervenção dos estudantes Marxistas na UNE britânica


Autoria e tradução: Pedro Bernardes Neto

Os militantes da Juventude Marxista começam a partir dessa semana a postar textos sobre as utas em nível internacionais da juventude para demonstrar que a luta brasileira é uma seção de uma luta internacional pelo Socialismo.

Iniciamos essa nova fase com a tradução de um texto de nossos camaradas britânicos sobre como defender as posições Marxistas e ganhar adeptos para uma perspectiva revolucionária dentro de uma organização estudantil de massas como a UNE. Discussão mais do que útil tanto para àqueles que são totalmente contra essa entidade quanto para aqueles que a seguem acriticamente.

Publicaremos essa experiência em duas partes. Nesta primeira semana focaremos na problematização da atuação da UNE frente à política de austeridade na educação britânica. Na próxima semana colocaremos como foi feito o combate por um programa Marxista na UNE britânica e qual o papel dos marxistas nessa frente de intervenção.



Qual atitude os estudantes revolucionários devem ter em relação à UNE (Grã-Betanha)? (Parte 1)

Publicado em Marxist Theory

Autor: Daniel Morley

Tradução para o Português Brasileiro: Pedro Bernardes Neto

Em novembro de 2010, o novo governo Tory foi saudado pelo maior e mais combativo movimento estudantil durantes décadas. Naquela época, uma breve onda de euforia se espalhou por meio dos militantes do movimento. O nascimento de uma nova geração de radicais tinha chegado.

O prognóstico não foi errado. A consciência da juventude mudou drasticamente, como demonstrado pelo crescente interesse nos coletivos Marxistas que os apoiadores da “Socialist Appeal” [1] tem ajudado a estabelecer pelo país. Contudo, mesmo que isso tenha acontecido, a falha da liderança da União Nacional dos Estudantes (UNE) [2] em apresentar uma liderança mais arrojada, temporariamente, permitindo essa explosão das massas se dissipar. Isso tem resultado em uma atividade que fracassa, e que é rompida em pequenas e efêmeras campanhas isoladas da massa dos estudantes. Como os estudantes Marxistas devem conduzir a si mesmos neste período para que quando o movimento estudantil decole de novo, eles podem vencer com um revolucionário programa Marxista conectado à classe trabalhadora organizada?

Entre os estudantes ativistas, existe uma ampla compreensão de que a liderança da UNE caiu bastante ficando muito aquém das tarefas dadas. As taxas estudantis dispararam, e a liderança enrola e “mostra sua barriga” (não faz nada). Aterrorizada com o prospecto de um movimento estudantil combativo decolando e atrapalhar suas suaves trajetórias de carreira, como o movimento de 2010/11 [3] ameaçou fazer, os líderes da UNE falharam em mesmo organizar uma manifestação no ano seguinte. Como resultado, uma camada da população dos estudantes tem uma consciência geral da inadequação dessa liderança. É óbvio que olhando para os líderes da UNE como uma liderança significativa, um caminho a seguir, por um programa de manifestações e declarações públicas inspiradoras, seria bem ingênuo. O desejo em fazer algo, em recomeçar o movimento de massa de 2010/11 é forte.

Esse ânimo é um ótimo ponto de partida. Nós temos percorrido um longo caminho desde o nível de consciência no tempo da introdução das “Top-up fees” [4]. Mas o perigo é que, como uma conseqüência da falta de movimento e iniciativa do topo, uma pequena camada de ativistas consegue procurar gerar atividade eles mesmos, assim eles sentem estar “fazendo algo”. Um romantismo pela militância e ocupações de 2010/11 consegue engatinhar e ascender um desejo de criar-se outro movimento, longe da ridícula estrutura da UNE. A tentação de se criar uma pequena militância, alcançar algo, consegue ser muito poderosa.

A tentativa de substituir a atividade pessoal de alguém pelo movimento de massas é perigosa porque ela inerentemente envolve mover-se “longe” da massa dos estudantes. Ela caminha sem dizer que a massa dos estudantes era parte indispensável do movimento estudantil. Foi o caráter de massa do movimento de 2010/11 que deu a ele seu poder. É um erro sério imaginar que criar uma militância de pequena escala e artificial é um fim em si mesmo, ou que isso pode será “a faísca que iniciará o incêndio”.

Um exemplo desta tendência estava em evidência durante a recente manifestação da UNE em 21 de Novembro de 2012 [5], sob o slogan “educar, empregar, delegar (empower)”, quando ativistas na Universidade de Londres (ULU) organizaram sua própria manifestação em conjunto com a da UNE.

Isso aconteceu dois anos depois a manifestação equivalente que expulsou o movimento antes – no ano de intervenção (2011), como mencionado acima, nada foi organizado pela UNE, e quanto a isso é justificado que uma pequena camada de estudantes ativistas organizasse sua própria manifestação naquele ano. Nós queremos as mesmas coisas – um movimento estudantil combativo e efetivo. É somente nos métodos para alcançar isso que temos desacordo.

Contudo, essa manifestação chamada em 2011 foi pequena e muito incomum pra Londres (e ‘ativista”) (very London heavy), como se poderia esperar de uma manifestação organizada fora das estruturas oficiais. A responsabilidade por essa fragilidade é da liderança da UNE pela recusa em organizar uma manifestação eles mesmos. Em 2012, a UNE se sentiu obrigada a organizar outra, graças à pressão dos estudante pelo país.

Com toda a legitimidade, força nacional, financiamento etc., que a UNE traz, seu comprometimento em chamar uma manifestação nacional seria entusiasticamente bem-vindo. Mas por que pensar assim, considerando o óbvio desânimo da liderança em fazê-lo? Por que nós devemos confiar nestes líderes? Porque qualquer manifestação com seus apoio terá o potencial para trazer dezenas de milhares de estudantes a mais do que manifestações organizadas por uma pequena camada de bem intencionados militantes. É uma demonstração da força do estudante. Tais marchas dão aos estudantes confiança neles mesmos e lançam as bases para uma campanha contínua.

Se somos sérios sobre os desafios por uma genuína, combativa liderança da UNE, marchas como essa apresentam uma oportunidade de ouro – dezenas de milhares de raivosos estudantes colocados juntos, abertos à escutar discussões políticas e soluções para a corrente crise! Qual melhor hora e lugar para dedicar nossos recursos a uma campanha explicando que essa marcha é somente o começo, que se nós queremos alcançar nossos objetivos, nós precisamos de uma combativa união nacional dos estudantes comprometida com um programa socialista – nacionalização dos grandes meios de produção para pagar a educação gratuita – e a conexão do movimento estudantil com o movimento operário para alcançar isso.

Marxistas que atuam em universidades devem concentrar seus esforços em construir para tais oportunidades. Isso significa construir uma poderosa rede de marxistas que atuam em universidades por todo o país. Sem dúvida os militantes que ajudaram a organizar a manifestação separada a qual nos referimos acima terão feito alguns esforços nessa direção. Mas se nós somos sérios sobre transformar a UNE, o que é necessário é um sustentável, concentrado, esforço nesta direção.

Nós devemos ser absolutamente claros, não somente entre nós mesmos, mas publicamente também, que a luta contra taxas, débitos, etc. é uma luta política que somente poderá ser vencida mudando combativamente o governo e o sistema capitalista nacional e internacionalmente. Isso significa que a organização nacional da união dos estudantes, a UNE, é a organização chave na batalha. Essa questão não pode ser evitada.

Militância Artificial

Por exemplo, durante a manifestação de novembro de 2012 da UNE, manifestantes líderes na ULU (Michael Chessum e Daniel Cooper), segurando duas posições chaves eleitas na união dos estudantes, não concentraram seus esforços em usar a manifestação como uma plataforma na luta por políticas socialistas na UNE. Ao contrário, seus esforços estavam direcionados principalmente em liderar sua própria marcha ao mesmo tempo que a da UNE. Embora seja verdade que, no fim, a polícia deu a permissão para a marcha, e então essa foi então possibilitada de se juntar com a principal, aquilo foi extremamente casual – eles somente conseguiram permissão naquele dia. 




É claro, nós culpamos o estado capitalista pela restrição de liberdades civis e nós defendemos o direito para os estudantes e trabalhadores marcharem livre da intervenção policial. E nós reconhecemos a sinceridade e positivo trabalho na ULU dos manifestantes citados. Mas isso não faz a estratégia de organizar manifestações separadas correta, já que elas apresentam muito maior probabilidade de repressão (kettled), assim isolando os manifestantes da marcha maior. Levianamente agindo assim, somente jogamos nas mãos da direita da UNE, que irá certamente (apesar de pelas razões erradas) acusar esses manifestantes de colocarem em perigo os estudantes face à brutalidade policial.

A orientação para a massa de estudantes agregados na marcha principal era claramente não prioritária para os manifestantes da ULU. Depois de terem se juntado com a marcha principal por metade do caminho, eles então buscaram os estudantes mais “militantes” para outra marcha separada. Eles fizeram isso porque eles sentiram que a rota da marcha da UNE não satisfazia sua ânsia por militância, visto que o Parlamento foi evitado. O que isso significa na prática é que esses manifestantes foram novamente fisicamente isolados do resto dos estudantes, que continuaram na marcha principal, pelo bem de ter uma experiência artificialmente militante.

Certamente, a UNE deve ser criticada por organizar uma rota fraca. Claramente, eles queriam ter certeza que nenhuma militância estudantil “descontrolada” surgisse, deflagrando uma onda de protestos e ocupações como em 2010. Mas para cumprir seu dever ao seu criticismo quanto à liderança da UNE, os socialistas deve perguntar a si mesmos qual é o mais efetivo caminho para apresentar esse criticismo? Seria desviando aqueles já contra a liderança da UNE para longe daqueles ainda com ilusões na mesma liderança e dento de uma não efetiva ação direta (stunt) que tem a consolação de ser mais “militante”?

Durante anos, os estudantes militantes de esquerda têm cometido o erro de chamar uma nova UNE para ser criada fora e a parte da já estabelecida, que aparentemente não tem salvação da camarilha burocrática. Nós argumentamos contra tal estratégia nos artigos anteriores. O argumento mais forte à disposição daqueles que procuram criar uma nova UNE “democrática, radical” tem sido de que, diferentemente dos sindicatos dos trabalhadores, o nível de aproximação (attachment) que a massa de estudantes tem da estrutura da UNE é muito fraco. Mas se isso é verdade, nós devemos julgar os manifestantes e esquerdistas pelo mesmo critério. Em outras palavras, quão “próxima” às radicais campanhas dos estudantes esquerdistas e às alternativas da UNE está a maioria dos estudantes? Nesta comparação, infelizmente a rede (network) dos esquerdistas sai da competição extremamente empobrecida ,de fato.

Se os estudantes são colocados de fora pela covardia da liderança da UNE, eles são dez vezes mais alienados pelos esquerdistas que eles testemunham operando em seus campi, os quais no ambiente livre da vida do campus facilmente se transformam em pequenas “panelinhas/seitas” (cliques). Esses grupos, ao contrário de concentrar seus esforços em uma aberta campanha por idéias socialistas, tendem a ajuntar pessoas de mesma opinião e já existentes ativistas, os quais começam a conversar somente uns com os outros e com aqueles classificados como “politizados” (políticos) no campus. Eles esquecem sobre a necessidade de pacientemente defender as idéias socialistas. De fato eles tendem evitar discutir as necessidades políticas do movimento pelo bem da preservação da “unidade” da panelinha (clique) ativistas, composta como inevitavelmente é de vários pontos de vista, desde o anarquista até o reformista de esquerda. Essa estratégia torna impossível crescer uma forte, duradoura e crescente tendência socialista no movimento.

A marcha em 21 de novembro de 2012 demonstrou bem claramente o mérito das organizações de massa, mesmo no movimento estudantil. Diferentemente do comício da ULU, o ponto de concentração (Embakment) do comício organizado pela UNE continha milhares de estudantes. Este foi um ponto de encontro para todos os contingentes de estudantes do país – Manchester, Sheffield, New Castle etc., assim como Londres. Isso somente foi possível porque foi organizado pela UNE. A UNE é, apesar de tudo, uma federação de (quase todas) as uniões estudantis individuais pelo país.

O ânimo, independente dos desejos da liderança da UNE, foi bastante combativo e acentuadamente mais contra a liderança da UNE que dois anos atrás (and makedly more against NUS than two years ago). Existia um ar de carnaval. Aqui temos um exemplo de manual de por que os socialistas nunca devem ficar fora (write-off) das organizações de massa dos trabalhadores, neste caso dos estudantes, embora com uma liderança podre.

Apesar de todo seu distanciamento da categoria e perversão (file), essas organizações são ainda as únicas que tem o poder de juntar dezenas de milhares de trabalhadores ou estudantes. E, sendo trazido junto, o movimento constantemente ameaça desenvolver uma vida por si mesmo. Graças ao chamado da marcha, milhares de estudantes comuns podem agora cantar palavras de ordem (slogans) juntos, discutir, sentir sua força coletiva etc., e neste sentido se tornam conscientes da possibilidade de uma UNE mais combativa. Assim oposições efetivas da liderança podre da UNE do movimento estudantil podem somente vir dentro da UNE e das manifestações de massa que ela organiza (apesar da UNE hesitar neste sentido) (in spite of themselves).

Notas:


[1] “Luta de Classe” promovido pela seção Britânica da CMI.
[2] Aqui o autor se refere à UNE da Grã-Betanha, em que a sigla de lá é NUS: Nation Union of Students.

[3] Considerada pela UNE (Grã-Betanha) a maior manifestação de sua geração, com cerca de 52 mil estudantes nas ruas, protestava em especial com os ataques via cortes na educação.

[4] Lei de 2002, que permite que as Universidades estabeleçam seu custo anual à população, e não mais o governo. Na Inglaterra, por exemplo, com essa lei, o custo de um estudante que era de 1000 libras/ano, passaria a pelo menos 5000 com sua implementação. Ver: http://www.theguardian.com/education/2002/oct/31/highereducation.uk2

[5] Primeira grande manifestação chamada pela UNE depoir de 2010, que anunciou o aumento das taxas anuais de estudo. Nesta os estudantes voltavam às ruas para atacar o contínuo aumento dos custos com educação superior, em especial, principalmente pelo governo de coalizão na Grã-Betanha. Ver: http://www.theguardian.com/education/2012/jun/27/nus-demo-2012

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