sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Movimento estudantil do Ielusc precisa de autonomia

Johannes Halter
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Esta semana a direção do Diretório Central dos Estudantes Florestan Fernandes (DCE/Ielusc), de Joinville – SC, apresentou um texto sobre a orientação que a entidade pretende adotar oficialmente com relação aos conselhos e comissões da faculdade. O documento expressa uma posição favorável a participar dos órgãos da instituição. Apresenta essa perspectiva como forma de solucionar os problemas e fazer as cobranças serem atendidas. Porém, lanço algumas reflexões como convite ao diálogo sobre o tema.

Há democracia real nos conselhos do Ielusc?

Há um ditado popular com uma lição muito sábia: a vida ensina. Seria importante fazer um balanço da experiência dos estudantes do Ielusc em ambientes como a Câmara do Ensino Superior e a Comissão Própria de Avaliação (CPA). Representantes de alunos participam desses espaços há cerca de três anos, discutindo aspectos administrativos e de funcionamento. Porém, quando questões sérias estão em pauta, os acadêmicos têm um peso justo nas decisões?

As decisões sobre os destinos da faculdade são pauta do Conselho da Mantenedora do Bom Jesus/Ielusc. Essa instância não tem nenhuma participação estudantil. Suas ações e deliberações não são públicas e sua composição é de representantes da elite financeira e política da cidade. Se é esta cúpula fechada que decide os destinos da faculdade, qual deveria ser a postura dos estudantes? Como deveriam agir, por exemplo, com relação às decisões de aumento da mensalidade que tomam?

O movimento estudantil deve participar de conselhos de instituições privadas?

Outro aspecto importante a ser considerado sobre a participação da entidade estudantil nos ambientes institucionais é o caráter privado do Ielusc. Apesar do discurso comunitário, a faculdade segue a mesma linha do Sistema Acafe: decisões sempre norteadas pelo lucro, sem democracia verdadeira e guiadas pela manutenção do atual modelo de mercado para a educação. 

Os conselhos e comissões das instituições de ensino privado do Brasil surgiram por iniciativa do governo Fernando Henrique. Ele queria dar ares democráticos para onde mandava dinheiro público: para o bolso dos empresários (seja dos tubarões ou dos filantrópicos). Essa política foi continuada e ampliada nos governos Lula e Dilma.

A expressão dessa política hoje são projetos como o ProUni e o Fies. Com uma democracia de mentirinha, governos e empresários uniram-se para impedir que o dinheiro público abrisse vagas gratuitas e para todos na universidade pública. Participar desses conselhos serviria a qual propósito? Acreditar neles como espaço de avanço não seria legitimar seu projeto de educação?

E com relação ao Conselho Municipal da Juventude?

A participação do DCE do Ielusc no Conselho Municipal da Juventude, a partir da gestão Mobiliza, também precisa ser pontuado. Uma análise marxista nos mostra um quadro diferente do pregado pelos governos. Por esse ponto de vista, esses conselhos buscam desviar a luta da juventude oprimida e trabalhadora para os canais burocráticos e alienantes do Estado capitalista. Esse mesmo Estado que está a serviço das grandes corporações e preparando a repressão sistematizada à juventude que está indo às ruas por perder as ilusões nesse sistema.

Não seria papel de uma entidade estudantil denunciar esse instrumento de amortização do choque das contradições sociais? Ao mesmo tempo, não seria o caso de colocar o trabalho do DCE, Centro Acadêmico ou grêmio centrado em ações para aumentar o nível de compreensão dos estudantes sobre sua situação?

Centro das ações na luta

Na minha avaliação, um diretório ou centro acadêmico deve ser independente para ter autonomia em suas ações. Seu principal campo de atuação precisa ser político e não institucional. Sua tarefa deve ser estimular a consciência coletiva dos estudantes, organizando-os para alcançarem suas cobranças.

Portanto, o centro deveria ser a luta. Ou seja, dialogo permanente com os estudantes e sua organização. Isso pode acontecer com manifestações, debates, panfletagens e qualquer outra ação que eleve o nível de compreensão da juventude sobre sua condição de setor explorado. Inclusive através das mais diversas expressões artísticas. Por que não?

O objetivo precisa ser solucionar os problemas pontuais, sim, mas sem perder de vista o problema maior. E a raiz dos males educacionais do país, desde a Ditadura Militar, é o modelo escolhido pelos governos: a opção do mercado ao invés das necessidades dos povos. 

Este ponto de partida e suas origens precisam estar na reflexão de toda entidade estudantil. Principalmente para aquelas cujo objetivo é trilhar o caminho da transformação real. O DCE Florestan Fernandes é herdeiro de uma tradição combativa e engajada do movimento estudantil do Ielusc. Por isso, tenho certeza da capacidade de os estudantes amadurecerem as reflexões aqui levantadas.

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