sexta-feira, 21 de junho de 2013

Balanço do primeiro grande ato de Joinville

Manifestação foi a maior desde a época do Fora Collor
Por Johannes Halter

Mais de 15 mil estudantes e trabalhadores tomaram as ruas de Joinville quinta-feira (20/6). Eles cantavam palavras de ordem e carregavam cartazes com mensagens de mudança. Esse tipo de mobilização não acontecia desde o Fora Collor. Estavam presentes vários sindicatos, partidos, entidades estudantis, associações de moradores, entidades sociais. Porém, também havia entidades que nunca participaram de movimentos e sempre foram contra manifestações de rua. Foi um dia histórico para os movimentos da cidade. Mas evidenciaram-se as debilidades do ato e suas contradições. Os manifestantes precisam fazer um balanço coletivo para avançar diante da situação.

Os jovens e  trabalhadores que participaram da manifestação nesta quinta-feira tiveram uma experiência nunca antes vivida pela maioria dos joinvilenses. Estavam fazendo movimento social, participando pela primeira vez de um movimento espontâneo da população. Muitos nunca haviam se preocupado ou refletido com atenção sobre questões políticas. Outros sempre apoiaram, mas jamais haviam se colocado em luta nas ruas. É tudo novo para a maioria deles.

Entender esse contexto, que está se repetindo por todo o Brasil, permite que o movimento faça um balanço dele próprio, identificando suas debilidades e contradições. Dessa forma, será possível avançar com organização e comprometimento as pautas apresentadas por aqueles que estão indignados com a situação. As vitórias já conquistadas pelo país com respeito à redução das tarifas demonstram que as massas venceram e podem avançar mais. A questão é como. 

É preciso organização

O primeiro ponto que precisa ser observado na manifestação de Joinville é a falta de organização. Os movimentos sociais organizados estão tentando explicar o que está acontecendo e mobilizar a população às ruas. Porém, há também uma campanha da direita e da grande mídia, os quais fazem com que as manifestações não orientem a luta para tomar ações claras de modo a conquistar as pautas que dizem respeito à classe trabalhadora e à juventude.

Esta quinta-feira mostrou que são necessários carros de som potentes o suficiente para garantir que todos nas praças e ruas possam ouvir. Como fazer com que a passeata avance para uma ação clara e consciente se não há suporte físico para isso? Além disso, o movimento acaba dividindo-se, como nesta quinta, pois não há referências claras que orientem a passeata. Diversos grupos legítimos dos trabalhadores e da juventude tentavam organizar partes da manifestação, mas não conseguiam fazer um trabalho articulado.

Unidade das entidades e movimentos de esquerda

Um ponto importante para reflexão de todos os manifestantes é a necessidade de unidade entre as entidades que lutam pela classe trabalhadora. É legítima a intenção dos movimentos ao tentar organizar as ações, mas é preciso avançar na discussão e organização com as outras entidades da classe trabalhadora. A atitude de não buscar a mais ampla unidade com base nas palavras de ordem não contribui em nada para a manifestação.

Foi um grande ato que aconteceu nesta quinta-feira, mas poderia ter um avanço muito maior se a esquerda estivesse unida. Dessa forma, seria possível chamar a unidade das lutas e sair com decisões claras sobre os objetivos, conseguindo dar desdobramentos para conquistá-las. É preciso que sejam organizadas reuniões das organizações que defendem os trabalhadores e a juventude com o objetivo de unificar todas as entidades que foram eleitas pelas suas bases para organizá-las e chamá-las à luta. 

Democracia

Um terceiro aspecto que deve pesar para os próximos passos é a necessidade de garantir a democracia no movimento de protestos – coisa que causou muita polêmica nas redes sociais e alguns princípios de briga na manifestação. Essa questão se desmembra em dois aspectos principais. O primeiro deles refere-se à organização do próprio ato. A única solução é adotar métodos democráticos de condução da manifestação, que envolvam a unidade das entidades de esquerda e a organização da mesma.

O segundo aspecto está relacionado à liberdade de expressão. As manifestações de solidariedade dispararam pelo país depois que os manifestantes de São Paulo foram reprimidos e presos pelo simples fato de se expressarem politicamente contrários ao aumento das tarifas. Contraditoriamente, várias pessoas que participaram do protesto em Joinville expressaram ódio e repúdio àquelas pessoas que estão organizadas em partidos, sindicatos e entidades estudantis.

O direito à liberdade de expressão está sendo atacado por participantes de manifestações que surgiram justamente para defender esse direito. Esse tipo de atitude precisa ser impedida e eliminada. A liberdade de expressão significa não apenas não ser preso por pensar o que se quer, mas também o de ser respeitado na forma como essa ideia é expressa (com cartazes, camisetas, faixas ou palavras de ordem). Houve apenas um momento na história recente do Brasil em que esse direito não foi respeitado: na Ditadura Militar.

Contradição: fascistas e a direita estão nos protestos

A quantidade de gente nas ruas de Joinville impressionou a todos. Mas é preciso um pouco de atenção. Não eram apenas estudantes e trabalhadores que estavam no protesto. As bandeiras não eram apenas de defesa de transporte público gratuito e para todos, de solidariedade aos manifestantes presos ou pela garantia de serviços públicos de qualidade. Havia também o pessoal do “Impeachment Dilma”, “Fora Petralhas”, “Abaixo os partidos”, “Golpe Militar já!”. Quem defende esse tipo de bandeira costuma ser denominado como gente “de direita”, que representa uma posição política conservadora, que defende melhorias para aqueles que estão no topo da pirâmide social. Essas são as pessoas que andam em carros luxuosos, são amigas íntimas de comandantes e generais, além de terem à disposição os melhores atendimentos de saúde e educação que o dinheiro pode comprar. Além disso, cumpre papel importante para essa postura a cobertura tendenciosa que incita o ódio e a violência feita pela grande mídia.

É desse grupo a palavra de ordem de “fora partidos”. Quais são os partidos que estão envolvidos nos protestos? Os partidos da classe trabalhadora. Aqueles que são resultado de anos de combate, tortura e morte de milhares que exigiam liberdade política, de organização sindical, partidária e de expressão. Derrubaram a Ditadura Militar, mas aqueles que a apoiavam continuam na sociedade. Essa é a direita. É ela que estava nos atos com um discurso nacionalista, como se defendesse o Brasil. Na verdade, estava defendendo seus interesses de classe dominante.

Já o jovem estudante e trabalhador, que nunca participou da vida política antes, vê com bons olhos todos que se enrolam na bandeira do Brasil e cantam o hino nacional, por que ele mesmo faz isso. Acontece que ambos fazem a mesma coisa, mas com objetivos diferentes. O outro faz parte da classe dominante. Quer que o movimento de protestos seja usado para colocar seus apadrinhados políticos em certos cargos, passar suas pautas nos espaços de poder e aumentar sua riqueza, independente da situação do povo. Tanto é que defende que não haja partidos, sindicatos, entidades estudantis ou movimentos sociais e agem com violência contra “a esquerda” – aqueles que representam os interesses históricos da classe trabalhadora. Isso tem nome: chama-se fascismo.

Os manifestantes da classe trabalhadora precisam refletir e impedir que a direita use o movimento para seus próprios interesses e ataque a capacidade de organização dos explorados. Durante as manifestações, cada um precisa estar ciente da importância de garantir a liberdade de expressão de todos e impedir que esse direito seja atacado, além de não cair nas armadilhas da provocação dos grandes meios de comunicação. As manifestações foram convocadas justamente em solidariedade aos que estão tendo esse direito negado.

Palavras de ordem

A manifestação também deixou evidente a confusão sobre as palavras de ordem do movimento. Os pontos que têm unificado as manifestações em todo o Brasil são a luta contra a repressão e pela redução das tarifas. Em todo o Brasil os governos fazem manobras jurídicas para legitimar a entrega do transporte coletivo nas mãos de empresas, como pretende fazer a Prefeitura de Joinville este ano entregando o setor novamente para a Gidion e Transtusa. Precisamos impedir que esse serviço continue a ser utilizado para o lucro. Portanto, a pauta “transporte” vai além das tarifas, devendo avançar por uma empresa pública de transporte, a única forma de garantir Tarifa Zero e um serviço de qualidade, gratuito e para todos.

A palavra de ordem de “abaixo a repressão” significa exigir a imediata libertação de todos os manifestantes presos, além da retirada das acusações de “formação de quadrilha” contra eles. Serviços públicos gratuitos e para todos são direitos. Lutar por eles não pode ser crime.

Transporte é um símbolo: é preciso avançar

O que está impulsionando toda a indignação das massas é o modelo vigente de sociedade, que privilegia os bancos, as empresas, destrói os serviços públicos e diminui o nível de vida da população. Os aumentos das tarifas são apenas um símbolo da situação crítica da população pobre.
Esse tipo de símbolo está sendo questionado com a explosão de movimentos de protesto em todo o mundo. 
O que está acontecendo, neste momento, na Turquia, é um exemplo semelhante, que começou com o governo derrubando árvores da Praça Taksim, em Istambul.

Jovens e trabalhadores estão nas ruas do Brasil e do mundo para transformar a realidade. Para isso, será preciso ultrapassar as contradições da nossa sociedade. Nesse sentido, a luta pelo socialismo ganha força novamente como via para construir o mundo que queremos.

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