quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um jovem e seu desejo de conhecer a cidade.


Eu moro no Rio de Janeiro, e pra quem não sabe, aqui nós temos uma coisa chamada Passe Livre. O Passe Livre é um direito conquistados pelos estudantes, onde podemos botar em pratica o Artigo 5 da Constituição, que resumimos como "o direito de ir e vir". Ou seja, os estudantes não pagam passagem. No Rio esse direito é valido apenas para alunos da rede publica de ensino (Ensino Fundamental e Médio).

Agora vocês imaginem: um jovem pobre, que mora numa região com poucos serviços culturais, mas que tem o direito de ir pro shopping, pra praia, pra casa de outro amigo, visitar um tia, etc. Esse jovem tem na mão um grande instrumento de desenvolvimento pessoal, pois pode se apropriar de vários tipos de dispositivos de sua cidade.



E era exatamente isso que eu fazia. Percorria toda a cidade. De Copacabana à Paciência. De Nilópolis ao Méier. Até meus 17 anos de idade, circulei muito pela minha cidade. Conheci muita gente, muitas praias, muitas bibliotecas, cinemas. Conhecer outros lugares ampliava meu modo de ver o mundo, percebi por exemplo, que em uma única Rua de Botafogo, a Voluntários da Pátria (Bairro nobre de minha cidade) tinha mais cinemas que em toda Zona Oeste, região onde ficava a Favela onde eu moro.

Mas, acontece que eu terminei o Ensino Médio. E com ele muita coisa virou mero passado, por exemplo: minhas amizades foram ficando mais distantes, nossas diversões: Jogar RPG no Bosque da praça 1° de Maio, sair da aula e ir pro Shopping de Madureira se encontrar com a galera que curtia Rock, ir pro Cinema que tinha dentro do Shopping Carioca (que dia de Quarta-feira custava 3 reais a meia-entrada), pegar um ônibus que não me servia, só porque alguma menina linda havia entrado nele... Essas coisas são de uma época que não existem mais.

Ficou também no passado andar de ônibus de graça. Essa foi uma das coisas mais difíceis de eu entender. Pensem num jovem que passou 17 anos de sua vida usando sua camisa da escola como "vale transporte", ter que passar a desembolsar dinheiro para se locomover...

Foi perrengue. Comecei a sair menos, ver menos meus amigos, ir menos ao cinema, ir menos à praia. 

Percebi que precisa de um emprego. Mas até pra arrumar emprego eu precisava de dinheiro de passagem, e nem sempre eu tinha. Foi uma fase difícil.

Daí comecei a trabalhar, e percebi que cerca de 30 % do meu salário era gasto com passagem. Aquilo me indignava.

Minha mente de jovem pensava: "Ônibus devia ser de graça, afinal tá na Constituição."



Mas ninguém nunca me ouvia, dizia que era impossível. E toda vez que a passagem aumentava via os adultos apenas reclamando.

Hoje já me acostumei a pagar pelo transporte. Mas já fico imaginando o quanto que terei de gastar pra meu filho ter a mesma oportunidade que eu de se apropriar da cada local da cidade.



- Passe livre já.
- Estatização dos Meios de Transporte Públicos Coletivos.

Felipe Araujo - Artista de Rua, Estudante de Filosofia da UFRJ, militante da JM Rio de Janeiro - RJ e jovem que considera importante se apropriar de cada território diferente.

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