quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A vingança dos escravos

Análise de João D. Leite, militante da JM, sobre o filme Django-Livre do diretor Quentin Tarantino estreado em Janeiro desse ano no Brasil.


Uma frase de Bertolt Brecht me veio à mente ao assistir Django-livre,“do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”. O filme pode não ter nenhum vínculo com a realidade, seus personagens e a história são pura ficção, mas a escravidão não é, nem suas atrocidades.


Ser castrado, chicoteado, separado da família, comido por cachorros, tratado como um animal, trancado em um buraco na terra, ser estuprado, andar sempre descalço, usar mordaça são apenas algumas coisas que ocorriam com a propriedade dos senhores de escravos mostradas no filme. Afinal, não podemos esquecer que os negros eram uma "propriedade".

Logo, toda bala que cruzava o corpo de um senhor de escravo, todo o tiro que o fazia sofrer era vibrado pelo público. Como não se indignar com o ATRASO que era a forma como eram tratados?

Tarantino não poderia ter simbolizado melhor a escravidão, a luta dos negros e o desejo de liberdade. O Cowboy “criolo” Djando, interpretado por Jamie Foxx, como dizia todos que o viam, não chora, ele não tem tempo. Está sucumbido pelo ódio e pelo desejo de encontrar sua mulher. Acima de tudo, ele está cansado de aguentar toda a ignorância, por isso vive querendo meter bala nos escravagistas.

Calvin Candie, interpretado por Leonardo DiCaprio, encarna bem o escravagista. Faz você sentir ódio com suas justificativas para todos os atos violentos que ele prática.

De todos os personagens, o que mais me impressionou foi o caçador de recompensas alemão, interpretado por Christoph Waltz. A cena em que ele cita Alexandre Dumas foi como se ele tivesse tomado pela revolta contra Candie. Além de o ator ser excelente, no papel.

Algumas partes do filme demonstram bem a intenção de Tarantino, pelo menos é o que me pareceu. Um negro chicotear um branco, o gatilho mais rápido do sul ser negro e a estranheza com o simples ato de um “criolo” montar um cavalo – são algumas partes que nos fazem refletir sobre seu significado.

A violência no filme também é extrema e por isso foi alvo de críticas. Eu diria que se lavou muito bem a terra com sangue. Sinceramente, não vejo problema algum nesse exagero.

Além disso, a frase de Brecht lembrou-me de outra coisa. Jamais podemos condenar os escravos que matam o seu senhor. Seja a paulada, queimado ou a tiro. Cada ato violento demonstra o cansaço com toda a humilhação.

Django é um bom filme, que acredito que deve ser visto por todos, não pelo valor histórico, mas pelas questões que levantei aqui. Afinal, ainda hoje existem escravos e quem condena a violência de sua rebelião.

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