segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Para os gringos verem?

Esta é uma crônica de quem vivencia o Rio de Janeiro além do circuito do turismo. O texto denuncia a grande contradição entre os investimentos para os eventos esportivos e as reais necessidades de urbanização das áreas de habitação dos trabalhadores e trabalhadoras mais pobres.


Ano passado vi um outdoor da Copa dizendo que o Rio era a cidade de todas as nações. Em baixo, no cantinho da calçada tinha um morador de rua dormindo. Durante o Rio+20, fecharam ruas, colocaram exército pra fazer segurança e todos os moradores de rua foram colocados em algum lugar longe de nossa visão. Ontem, foi anunciado um projeto para a construção de um campo de golfe. A pergunta que eu me faço é: estamos (re)fazendo essa cidade pra quem?

A contradição de hoje vem da Rua da Ventura, em Curicica. Ela é localizada próxima do futuro campo de golfe na Barra da Tijuca. Esta rua tem esgoto entre a calçada e as casas. Os moradores fazem pinguelas (pequenas pontes) para não caírem no rio de esgoto em suas portas. Vejam na imagem ao lado. Em uma rua próxima a essa tem uma faixa, feita a mão, dizendo que urbanização também é sustentabilidade, afinal de contas, ninguém joga esgoto na nossa água por vontade própria. Estamos gastando milhões, construindo tudo para turistas e atletas, porém pouco será usado por nós, pior ainda, nem dinheiro para ver os jogos a maioria terá. No Rio de Janeiro falta saneamento básico.

E como não querer que os hospitais estejam lotados, se grande parte da população tem contato direto com esgoto, com água não tratada? Não adianta dar remédio contra verme pra uma criança, se para ela ir pra casa ela tem que passar por onde os vermes estão. Não adianta se vangloriar pelo ENEM e pela ampliação de vagas em universidades federais, se para frequentá-las muitos estudantes precisam pegar 3 ônibus, ou trem e metrô, ou barca e gastam uma fortuna de passagem e horas e horas nos trânsito. Uma vez um escritor disse que o Brasil ama divulgar falsos triunfos para que os estrangeiros vejam. Ele estava certo.

06 de novembro de 2012

Carolina Souza
Acadêmica de Ciência Política da UNIRIO

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