terça-feira, 27 de março de 2012

Uma voz que canta a rebelião grega


A jovem cantora empolga a audiência com interpretações emocionantes de clássicos da trincheira

O teatro Gialino, na região central de Atenas, é uma casa noturna à moda antiga. Cerca de 400 pessoas se acomodam pelas mesas distribuidas diante do palco. Pedem bebidas, encomendam uns petiscos, alguns até se arriscam a jantar. Muitos fumam, cobrindo o auditório com uma névoa que recorda os bas-fonds dos espetáculos de outras épocas.

Rita Antonopoulou: uma das cantoras gregas mais aplaudidas

O recital em cartaz pega carona nesse ambiente. Intitulado Paris-Berlin, apresenta uma dupla de artistas inspirada no dueto entre Liza Minelli e Joel Gray, protagonistas do célebre filme Cabaret (1972). Trata-se de uma antologia musical do século XX, entrelaçada por textos ácidos contra o garrote apertado pelos governos francês e alemão sobre o pescoço da Grécia atual.

Claro que a narrativa é incompreensível para os que não dominam a língua. Mas o repertório fala para a memória e o coração dos ouvintes de todos os idiomas. No centro do espetáculo, uma jovem cantora empolga a audiência com interpretações emocionantes de clássicos da trincheira. Velhas músicas de guerra e protesto, gregas ou de outras partes, misturadas com canções de amor inventadas em épocas de combate.

A estrela da noite chama-se Rita Antonopoulou. Sua voz grave e potente é a antítese, por exemplo, do estilo sussurrado e pedante de Carla Bruni, a primeira-dama francesa. Enche o teatro de eletricidade ao cantar Lili Marlene, tornada famosa por outra Marlene, a Dietrich, e renascida nos lábios de Hanna Schigulla. Faz homens e mulheres lacrimejarem com a glamurosa Sous le ciel de Paris, da legendária Edith Piaf.


Rita canta em francês, inglês, grego e alemão durante quase três horas. Não somente empresta sua voz a canções antológicas, mas também arrisca novos arranjos. Depois de versão clássica para Amsterdam, carregada com a densidade pensada por seu autor, Jacques Brel, mergulha em nova abordagem do mesmo compositor, dessa feita para Ne me quitte pas. Oferece à célebre cantiga um tempero de agressividade que pode até incomodar os que apreciam sua entonação original de dor e perda.

O espetáculo se encerra com tradicionais cantos locais, a maioria de protesto. Rita desce do palco para a plateia. Muitos acompanham, ao seu lado, conhecidas letras e melodias de Mikis Theodorakis, Thanos Mikroustsikos e outros ídolos da história musical do país no século XX. As pessoas parecem tomadas pela vontade de buscar, no passado, a trilha sonora que dê ânimo e poesia para as batalhas travadas pelos gregos de hoje, por sua sobrevivência perante a roda inclemente das finanças mundiais.

“Minha geração tinha a impressão de ter tudo”, diz a cantora, nascida em Atenas há 33 anos. “Quando a Grécia se incorporou a União Europeia e o país foi inundado por créditos abundantes, o consumo fácil criou ilusão de prosperidade entre os jovens. Agora acabou". Filha de um trabalhador na área de telecomunicações e de uma bancária, Rita ainda vive no Maroussi, bairro de classe média nos subúrbios de Atenas. Apesar de os pais terem simpatia pelo Pasok, partido da social-democracia, sua crítica à sociedade grega brotou apenas com a emergência da carreira musical.

“Eu era uma garota de 18 anos que gostava de rock, ouvia Bonny Tyler, Bon Jovi e muita música pop”, relata. “Queria fazer faculdade de arquitetura. Não era uma menina rica ou mimada, logo comecei a trabalhar para não ser um fardo para meus pais, mas fazia parte da juventude dourada dos anos noventa.” Certo dia, nos idos de 1996, para comemorar o aniversário de um amigo, foi com seus colegas a um bar. Como sempre gostou de cantarolar, insistiram para que subisse ao palco e interpretasse algo em homenagem ao aniversariante. Escolheu uma canção folclórica. Depois outra e mais outra. No final da noite, ganhou um envelope da dona do estabelecimento. Era o pagamento por sua apresentação e um convite para que virasse profissional da casa.

Rita começou a cantar em bares e cafés. Através de um conhecido em comum, foi apresentada ao compositor Plessas Kraounakis, bastante conceituado por suas músicas para teatro e cinema, além de destacado personagem da intelectualidade de esquerda. Interpretando suas canções, ela foi conquistando reconhecimento de críticos e outros compositores. Não demorou para ter a oportunidade – e a coragem – de procurar Thanos Mikroutsikos, um dos grandes menestréis do cancioneiro popular grego e expoente da esquerda musical desde os anos sessenta.

Ex-militante maoísta e ministro da Cultura (1994-1996) no governo de Andreas Papandreu, Mikroutsikos logo fez daquela bonita loira de olhos verdes e timbre rouco sua principal intérprete. Rita ganhou repertório novo e viu as portas das gravadoras se abrirem. Além de três discos de relativo sucesso, passou a ser tocada em rádios e programas de televisão. Algumas de suas apresentações, disponíveis no You Tube, foram vistas por mais de meio milhão de navegadores. Quem quiser, pode procurá-las em sua página no Facebook.

A cantora também incorporou um bom e eclético pacote de músicas estrangeiras, nem todas cantadas no recital Paris-Berlin. Nesse seu portfólio, há uma belíssima interpretação de Canção do Mar, fado escrito por Frederico de Brito e Ferrer Trindade, para ser imortalizado por Dulces Pontes e Amália Rodrigues. Também constam composições de Astor Piazolla (Los pájaros perdidos) e um clássico spiritual norte-americano, Sometimes I feel like a motherless child. Pode-se igualmente ouvi-la cantar, com uma suavidade quase bossa-nova, a brasileiríssima Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá.

“Quando eu estava na escola, chegava em casa e minha avó só me acompanhava no jantar depois de assistir mais um capítulo de Mulheres de Areia”, conta sorrindo. “Não tive muito contato com a cultura brasileira, mas foi escutando essa novela, sem ler as legendas, que me dei conta de uma certa facilidade para aprender idiomas e reproduzir seus sons, mesmo quando não entendo o conteúdo”. Esse talento, ajudado pelas gêmeas do bem e do mal representadas por Glória Pires, deu-lhe a peculiar característica de cantar em várias línguas sem passar pelo constrangimento de sotaques ruidosos.

Nesses 15 anos de carreira, Rita acabou por construir uma identidade fortemente vinculada à música de protesto, ainda que sua voz embale cantos de outros estilos. Até há poucos anos, esse caminho era asfaltado com dificuldade. “Durante muito tempo tive a impressão que as pessoas gostavam de minha performance, mas me olhavam como se eu fosse alguém de outro tempo”, relembra. “Mas a crise econômica, seguida de manifestações e greves, está fazendo o protesto voltar a ser pop.”

Apesar do crescente sucesso, em parte devido ao novo clima político no país, seu sentimento é de inconformidade, contrariando a ideia generalizada de que o país está em ebulição. “Os jovens ainda não entenderam o que se passa”, reclama. “A maioria fica em casa, meio desanimada, não assume compromisso de lutar contra o corte dos direitos sociais e a destruição da soberania grega.”

A insatisfação com sua geração impulsiona uma ávida militância musical. Rita canta onde lhe convidam: atos públicos, exibições para arrecadar fundos sindicais, demonstrações de solidariedade. “A música não é apenas uma das formas de registrar a história”, pontifica com a mesma contundência suave com que canta. “Também pelas canções as pessoas descobrem o mundo em que vivem e quando é hora de fazer alguma coisa para mudá-lo.”

 Matéria publicada no dia 16/01/2012
 Fonte: Opera Mundi
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários anônimos serão excluídos, identifique-se. Se preferir entre em contato pelo e-mail: juventudemarxista@gmail.com