domingo, 29 de janeiro de 2012

Por que os jovens de hoje não gostam de ler Machado de Assis?


Este não é um artigo produzido pela Juventude Marxista. Mas decidimos publicá-lo por acreditar que o autor conseguiu construir uma ótima proposta para um debate sobre juventude e literatura brasileira. Sua crítica abordou muito bem sobretudo o aspecto político a respeito do fomento a cultura direcionada aos estudantes. Desejamos uma boa leitura! E não esqueçam de comentar.



O meu trabalho de vendedor de livros me proporciona conhecer e conversar com muitas pessoas diariamente. Ouço o dia inteiro suas histórias, solicitações, críticas e dúvidas a respeito do "Mundo Literário". 

Na última sexta, parado no ponto a espera do ônibus, fiquei reparando no diálogo entre duas jovens que aparentavam ter 18 anos cada uma. Elas estavam discutindo a respeito dos livros do Machado de Assis. Para resumir: diziam não entender como alguém conseguia ler algo tão chato e enfadonho, e que aquele tipo de livro, nem os seus avôs conseguiam entender o que estava escrito. Pensando nesta questão, resolvi perguntar: por que os jovens não gostam de ler Machado de Assis?

O meu primeiro contato com a obra do "Bruxo do Cosme Velho" (como era conhecido), foi aos 8 anos na 2ª série do antigo primário. Na época a professora nos pediu para comprar "O Dom Casmurro", que após a sua leitura teríamos uma prova. Me recordo que li o livro "aos trancos e barrancos", não entendi nada, aliás, ninguém entendeu. Quase a sala inteira tirou nota baixa, além disso, fiquei traumatizado, e demorou muito tempo para que eu voltasse a por as mãos em outro livro do Machado de Assis. Isso só veio a acontecer na minha fase adulta e como vendedor de livros. Procurei fazer a releitura de todas as suas obras, já com um embasamento crítico e analítico mais apurado, adquirido com a experiência e a leitura de outros autores clássicos e livros semelhantes.



A mesma situação acontece com as famigeradas listas pré vestibulares. O aluno (principalmente de escola pública), passa toda sua vida escolar sem ser apresentando a leitura, muitos nunca ouviram falar de: Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado e por aí vai. Ao fazer sua inscrição para o vestibular, é exigido que ele leia os grandes clássicos destes e de outros autores. Ler, eles leem, pois têm o objetivo de passar na prova, já entender o que leram... aí é outra história... Você acha que estes "alunos" após a leitura obrigatória destas obras, vão querer saber de ler Machado de Assis e autores clássicos novamente, é claro que não, vão fugir deles como um diabo foge da cruz. 

No entanto, a maior parte da culpa por esta negligência aos nossos autores clássicos, e principalmente ao Machado de Assis, deve-se ao governo, que não prepara os jovens para irem iniciando gradativamente na leitura destas grandes obras. Não tem lógica uma criança de 8 a 10 anos ter que ler um livro, em versão integral, de qualquer um destes autores, é óbvio que ela não vai entender nada, e o pior, é capaz desta criança se afastar de vez da leitura, por achar que todo livro é de difícil entendimento como aquele que lhe foi sugerido. O problema não está no livro, e sim na falta de interesse e habilidade do Estado, escola e professor em indicarem um livro que tenha mais a ver com a faixa etária de cada criança. A editora Escala Educacional, por exemplo, tem em seu catálogo a versão adaptada e separada por idades, de vários grandes clássicos da Literatura estrangeira e nacional. 

Começar com uma adaptação, vai fazer com que esta criança ou adolescente, criem por conta própria, o interesse na leitura dos nossos grandes autores. Eles vão perceber, que ao contrário do que pensavam, o entendimento destas obras não é tão inacessível e complicado quanto parecia ser. A dose só precisa ser administrada em pequenas quantidades e ir aumentando de forma gradativa, com a evolução e maturidade crítica adquirida ao longo das leituras. Com o tempo, e a aquisição de um senso analítico mais apurado, logo, estes leitores estarão desbravando as páginas das obras dos Grandes mestres da Literatura Mundial, e dentre eles, é claro: Machado de Assis. Quando estes jovens chegarem na idade de prestarem vestibular, vão tirar a lista de leitura obrigatória de letra, pois já terão tomado posse de uma boa base e senso literário. Isso lhes proporcionará fazer uma leitura prazerosa das obras, facilitando o seu entendimento e aumentando a perspectiva de terem boas notas nas avaliações propostas.

Quero deixar bem claro que esta postagem não é uma crítica e nem generalização aos jovens, até por que conheço adolescentes de 15 anos que já leram muito mais clássicos e livros do Machado de Assis do que eu. A minha intenção aqui foi a de chamar a atenção dos nossos governantes para um erro que vem ocorrendo há muito tempo e que se não for corrigido, além de diminuir o interesse das nossas crianças e adolescentes na leitura, formará uma geração cada vez mais alienada, sem opinião e descompromissada com a cidadania, desenvolvimento e futuro do Brasil.

Um abraço e boas leituras!!!

O vendedor de livros
Texto de 25/05/2011


E você, leitor ou leitora do Blog da Juventude Marxista, o que achou desse debate? Concorda, não concorda? Já leu algum livro do Machado de Assis? Com que idade? Por favor, deixe um comentário e compartilhe sua opinião conosco, valorizando ainda mais o tema aqui proposto.


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2 comentários:

  1. POR QUE OS JOVENS DE HOJE NÃO GOSTAM DE LER MACHADO DE ASSIS?
    A questão descortina um horizonte de análise e avaliação tão vasto que dificilmente poderá ser totalmente preenchido aqui. Portanto, vamos por partes percorrer o caminho de um debate tão interessante.
    Em primeiro lugar, necessitamos demarcar o terreno. Se excluirmos do universo da juventude sua maior fração, a juventude proletária, que não sabe se gosta ou não de ler Machado de Assis, simplesmente porque não têm tempo para lê-lo ou porque sequer ouviram falar do mesmo, teremos a fração minoritária, mas ainda assim numericamente significativa, dos jovens das classes médias (alta, média e baixa) que tiveram ou têm acesso à educação formal em todos ou quase todos os seus níveis.
    O foco, portanto, deve se voltar primordialmente para os jovens das classes médias. Convém alertar que dizer “jovens das classes médias” não é nenhum insulto! Nem significa também que estejam, por conta de suas origens de classe, idiotizados pela ideologia burguesa. Se fora assim, Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Guevara, Ted Grant entre outros, jamais teriam adotado a perspectiva do proletariado.
    Falemos, portanto, à falta de um conceito mais preciso, da juventude “engajada” moral e espiritualmente. Constatar isto, já reduz o sub-universo dos jovens das classes médias a uma fração deles: os que têm sensibilidade estética e integridade moral e espiritual, e desejam aprimorá-las, como também o hábito da leitura e a degustam com prazer. São muitos e devem ser atraídos à perspectiva da classe trabalhadora. Os demais estão muito atraídos pela perspectiva que lhes abre a ideologia burguesa, e desejam apenas isto: tornarem-se também eles grandes burgueses. Para estes últimos, não há remédio: não leram Machado e não gostaram do que não leram! Nem vão se tornar grandes burgueses, com a graça de Deus!
    A obra de Machado oscila entre a genialidade criativa e a mediocridade. No romance, são antológicos Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e, para mim, em segundo plano, Dom Casmurro. Como contista – e são mais de 200 contos –, cito principalmente o magnífico O Alienista. Sinceramente, não gosto de suas peças teatrais, de seus poemas, nem de sua crítica literária, mas suas crônicas nos oferecem o sabor e o aroma do Rio na virada do século XIX. De algumas de suas obras, não serão somente os jovens que não as degustariam com prazer, os mais velhos, também. Mas isto não constitui um problema maior. Cervantes que, a meu ver, ao lado de Shakespeare, é o pai da literatura moderna, só escreveu que valesse a pena, nada mais nada menos que o Quixote, e não preciso dizer mais nada sobre Cervantes!
    Como em tudo o mais, nada justifica o fetiche. Machado de Assis trazia a contradição dentro de si mesmo. Sua biografia ilustra isto. Foi capaz de dar à luz um romance como Memórias Póstumas de Brás Cubas ou um conto como O Alienista, mas também foi “capaz” de fundar e ser o primeiro presidente desta coisa chamada Academia Brasileira de Letras e não desprezava as honrarias públicas. Portanto, há muito de filisteu em sua trajetória pessoal. Isto provavelmente não passa despercebido aos jovens.
    Mas não devemos ser tão rigorosos com os artistas. Não é o artista que interessa, mas sua obra e seu impacto em seu tempo e no porvir. Machado conseguiu impactar aí e se tornou uma referência da literatura mundial.
    Machado foi o introdutor do romance realista neste país e também foi o primeiro romancista com temática e inspiração totalmente urbana. Não olhava para “trás”, para o passado patriarcal e camponês, que ainda hoje constitui o gosto estético de grão-senhor de muita gente. Ele, Machado, não se colocou à sombra da Casa Grande, mas, de certa forma, também ignorou a Senzala. Para ele, não poderia ser diferente: a classe trabalhadora brasileira apenas dava, em sua época, os primeiros e titubeantes passos em direção à maioridade social.
    Mas, asseguro aos jovens que devem ler Machado tanto por espírito de pesquisa e conhecimento quanto por gosto estético. Não serão defraudados.

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  2. Há quem diga que os jovens de hoje não leem Machado de Assis porque na verdade não leem nada, que perderam o gosto pela leitura. Mas talvez esta afirmação não seja tão adequada assim.

    Se temos um consenso de que os jovens de hoje passam horas e horas na frente do computador, precisamos reconhecer que eles passam um considerável tempo lendo e escrevendo. E no final das contas temos um jovem que lê e escreve muito mais do que os jovens do passado.

    Mas evidentemente precisamos fazer um destaque sobre a "qualidade" dessa leitura, pois ela raramente inclui obras de literaturas ou outras referências. E sobram temo para os sites de relacionamento como o Facebook.

    O que gostei mais do artigo foi sua crítica a (de)eficiência da escola em fomentar a leitura de livros. O que é extremamente contraditório e uma realidade que precisamos mudar. Nesse sentido o autor está absolutamente correto em sua crítica. O vestibular acaba funcionando como uma camisa de força a elevação cultural da juventude.

    Flávio
    Juventude Marxista do RJ

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