quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As estratégias capitalistas das promoções de final de ano: ensaio sobre o fetichismo da mercadoria


À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, mas uma investigação mais cuidadosa à luz da economia política consegue revelar uma série de sutilezas metafísicas e manhas teológicas. Dessa forma, com os objetos que encontramos nas prateleiras das lojas – diria Marx – devemos ter um olhar para além da sua simples aparência. Deve-se buscar a complexidade da sua produção e consumo na compreensão das relações sociais do nosso modelo de sociedade. E a razão que motivou os autores a escrever este pequeno ensaio é a necessidade de analisamos melhor como a ideologia burguesa do fetichismo da mercadoria acorrenta as famílias trabalhadoras na corrida avassaladora das compras de final de ano. Nossa referência é a obra de Karl Marx no Volume I de O Capital.

O que é este fetiche? Grosso modo, é a transformação da mercadoria, de algo criado pelos seres humanos, em uma coisa que parece ter vida própria, força própria e que, de tão forte, domina os seus criadores. No marxismo este conceito designa uma forma particular de alienação, característica do modo de produção capitalista.


Após o natal, vemos anúncios de fins de ano nos quais empresas comerciais dão até “70% de desconto nas mercadorias”. Como todos sabem, elas querem nesse momento vender tudo o que ficou preso nos estoques, sem ser consumido porque antes os mesmos produtos estavam muito caros. Estas promoções, estas queimas de estoque, relevam duas coisas: 1) O preço da mercadoria antes do natal é sempre abusivo – pois poderia ser vendido por muito menos, o que demonstra isso é a redução grande dos preços depois do natal; 2) Essa estratégia comercial dificilmente teria sucesso se o povo não sofresse uma grande coerção ideológica através, sobretudo, da mídia. Pois é a ideologia burguesa do fetichismo da mercadoria que instiga o ser humano, sob a condição de “consumidor”, a comprar, comprar e comprar. Para só assim se sentir realizado, um consumo voraz e cego.

Outro assunto que não poderíamos deixar de citar é o consumismo infantil encerrado na imagem do "Papai Noel". Através desse personagem os capitalistas difundem entre as crianças que a sua felicidade está conectada à obtenção de determinados brinquedos. Compreendemos que a teatralidade e supersticiosidade do personagem Papai Noel visa implantar desde muito cedo nos nossos jovens a domesticação deles ao fetichismo da mercadoria. Reflitamos: Quantas crianças nesse natal ficaram tristes por não terem ganhado um Tablet?

Aprendemos com Marx: “com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens.”. Isso é o que acontece por trás da ilusão de que os produtos sanam as nossas necessidades. Quando no fundo são elas que criam essas novas necessidades nas nossas mentes, para assim venderem e lucrarem com nossa exploração e alienação. Não devemos divinizar as mercadorias, e não deixar que o mercado nos coisifique.

Ora, mas e se um dia os consumidores não comprarem as mercadorias antes e esperarem passar o natal para comprarem mais baratas depois? O que será que poderia acontecer se o povo não caísse no canto da sereia das propagandas? O povo seria capaz de refletir sobre a alienação/conscientização através do ato de consumir? Certamente quando estes questionamentos ganharem a preocupação de uma parcela maior da população, a possibilidade de conseguirmos derrubar o capitalismo estará mais próxima. 

Hoje essa ainda não é a nossa realidade. Até lá temos muitas tarefas. E seguimos fazendo a nossa parte, pacientemente. Seguimos buscando explicar para o povo a grande arma de interpretação crítica da realidade e transformação social que nos fornece o método marxista.

Wagner Francesco
Teólogo e marxista.
Conceição do Coité, Bahia
Autor do Blog: http://wagnerfrancesco.blogspot.com
wagnerfrancesco@gmail.com

Flávio Almeida Reis
Pós-Graduando em Geografia pela UFF
Petista e militante da Juventude Marxista do RJ
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4 comentários:

  1. Só um adendo: o conceito de alienação, segundo o filosófo Karl Marx, não se reduz e nem se resume a um fetiche, ou a apenas uma forma particular de transformação de uma coisa em ser. É bem mais ampla. Dito isto, a mensagem de conscientização diante da realidade dada é uma premissa bastante saudável. Feliz 2012!

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  2. Caro Tato, você tem razão. O conceito do Marx sobre alienação é mais complexo do que o trabalhamos aqui neste texto. Não foi nossa intencionalidade esgotar aqui este debate. E foi por termos consciência disso que incluíamos a palavra "ensaio" no título do artigo. Estamos abertos a contribuições dos companheiros. E agradecemos a gentiliza do seu comentário. Assinado Editor do Blog da JM

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  3. O blog está de parabéns. O desafio maior de vocês é encontrar pessoas dispostas e de mente aberta.

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  4. Bom texto. Se quiser se unir a nós e só entrar em contato Carolina.

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