quinta-feira, 10 de março de 2011

Protesto: Sauna de Aula, não!

Rio de Janeiro


No dia 22 de fevereiro de 2011, estudantes do colégio Pedro II, com apoio dos professores, reivindicaram a climatização das salas de aulas.  Segundo os manifestantes, os bebedouros não têm água de qualidade enquanto algumas salas têm ventiladores muito barulhentos, o que atrapalha o aprendizado dos alunos e o trabalho dos professores.

Há outros problemas paralelos a esse, como a falta de cantina e problemas com o passe-livre nos transportes públicos. Além disso, os alunos solicitaram a retirada do nome do pavilhão administrativo do colégio, que homenageia o almirante Augusto Rademaker, ex-integrante da junta militar e eleito vice-presidente na chapa encabeçada pelo general Emílio Médici.

Diante de tantos desagrados, alunos e professores foram às ruas exigindo uma postura da direção geral do Colégio. Pois com termômetros atingindo 41ºC nas salas de aula, não havia condição de os alunos aprenderem e, tampouco, de os professores ensinarem algo. Em cima de um palanque, João Pedro, presidente do Grêmio CPII São Cristóvão III, com o apoio de alunos de todas as unidades, reclamou das más condições de aula, vestindo – assim como outros alunos – roupas de banho, bóias e óculos de nado, além do uniforme.  

Pode parecer arrogância o pedido de ares-condicionados, porque estudantes de outros colégios públicos e até mesmo dos particulares nem sempre têm ar-condicionado nas salas. Mas tal pedido é baseado no fato de o Colégio Pedro II ter recebido verbas para a compra desses equipamentos. Segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) foi realizada a compra de 28 aparelhos e a instituição os adquiriu em duas compras separadas por R$ 105.142. Dez deles custaram R$ 46.247, no dia 1º de setembro, e outros 18 saíram por R$ 58.895, em 29 de novembro. Antes, a direção da escola adquiriu 60 ventiladores de parede por R$ 5.752. A compra foi feita no dia 20 de maio e se destinava à unidade São Cristóvão.


Apesar da compra ter sido efetivada, os estudantes ainda não usufruem desse direito, pois os equipamentos foram instalados em setores administrativos. O que faria a senhora diretora geral Vera Maria considerar importante o uso desses equipamentos somente no setor em que ela própria trabalha? Enquanto isso, os alunos têm o aprendizado prejudicado e os impostos aplicados no conforto de somente alguns funcionários, que afinal, como todos, também devem trabalhar num ambiente climatizado. Vale ressaltar que a luta dos alunos não é contra esses funcionários, mas sim contra a exclusividade que lhes foi garantida. Nossa bandeira é: ARES-CONDICIONADOS EM TODAS AS SALAS! PARA TODOS OS ALUNOS, PROFESSORES E FUNCIONÁRIOS!

A diretora geral da unidade, Vera Maria, como resposta pelo protesto pacífico dos estudantes, fechou os portões do colégio e proibiu a entrada dos alunos, além de não se pronunciar durante a manifestação. Em poucos minutos, os policiais militares (PMs) chegaram para tentar controlar os estudantes e o trânsito. O comportamento esperado por profissionais que são pagos para nos defender da violência é que, em meio a um protesto pacífico de estudantes, tenham o mínimo de bom senso. Mas os PMs não respeitaram o fato dos alunos serem menores de idade e estarem de uniforme. Como resposta ao ato, jogaram spray de pimenta, sem nenhum tipo de diálogo, além de acertarem estudantes com cacetetes. Os alunos proporcionavam algum tipo de perigo à sociedade para tamanha violência?

Não. Mas o que se esperar da polícia que mais mata no Brasil? O que se esperar de profissionais incapacitados de garantirem a segurança da população? Enquanto eles calam protesto de estudantes, que não têm armas nem drogas para negociarem, milhares de mulheres são estupradas, violentadas; milhares de cidadãos são assaltados e até mortos porque a polícia é ineficiente para assegurar o que é de direito do cidadão.

É do conhecimento de todos que toda operação policial realizada tem seu troféu. Essa não foi diferente. Para mostrar que trabalho dado é trabalho cumprido, os policiais levam preso o estudante João Pedro, após ele entrar no Colégio por conta da violência e do caos causado pela PM. Foi ingenuidade do aluno achar que no colégio estaria livre da violência e da punição da polícia. Pelo menos foi isso que o sorriso sarcástico do policial revelou.

Segundo a professora Vera Maria em Nota de Esclarecimento divulgada no site do Colégio Pedro II: “A forma como a manifestação foi orientada e se desenvolveu causou transtornos indesejáveis ao trânsito, levando a Polícia Militar a se fazer presente e atuante, o que aconteceu com tranquilidade e eficiência”. De fato, a PM atuou de forma ”tranqüila e eficiente”. Mas essa talvez tenha sido a visão do tranquilo gabinete climatizado proporcionado à diretora. Pois quem estava nas ruas e visualizou a forma desumana e estúpida com que os profissionais da segurança atuaram, não pôde dizer o mesmo.



A INSTITUIÇÃO

Para aqueles que não conhecem o Colégio Pedro II, ele foi fundado por um Imperador e recebe seu nome desde sua inauguração, no ano de 1837. Sempre voltado para a burguesia, formava excelentes estudantes, muitos deles ex-presidentes do Brasil – o que serve de orgulho ou desgosto. Todo caso, todo esse ensino de qualidade proporcionado durante décadas gerou para a atualidade jovens perspicazes, sagazes, com sede de justiça. O que poderia se esperar de adolescentes que têm os melhores professores do Rio de Janeiro e que não se curvam a uma verdade absoluta, a uma regra sem antes questionar aquilo? Esse é o espírito do aluno do Pedro II. Se nos é de direito o passe-livre, vamos reivindicar. Se nos é de direito água de qualidade nos bebedouros, vamos protestar. Se nos é de direito climatização nas salas de aula, vamos lutar! Mesmo que para isso sejamos acusados de vândalos ou meros revoltados. “Nós levamos nas mãos o futuro de uma grande e brilhante nação. Nosso passo constante e seguro rasga estradas de luz na amplidão. Nós sentimos no peito o desejo de crescer, de lutar, de subir. Nós trazemos no olhar o lampejo de um risonho fulgente porvir.” Isso é o que diz o hino do Colégio Pedro II, motivo de orgulho para seus alunos.

Abaixo, uma declaração do escritor Nelson Rodrigues:

“...uma das mágoas que eu tenho na vida é a de não ter sido, na minha infância ou juventude, aluno do Pedro II[...]Há, em mim, até hoje, a nostalgia de não ter estudado ou fingido que estudava lá. A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca. Olhem para as nossas ruas. em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos.Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II."

Mara Freire – Colégio Pedro II
Março de 2011, Rio de Janeiro

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