domingo, 31 de dezembro de 2000

Manifesto de São Paulo - 1º Encontro Mundial de Jovens pela Revolução

Jovens de todo o mundo!

Nós nos dirigimos a vocês, jovens trabalhadores, universitários, secundaristas, jovens desempregados, jovens camponeses, jovens envolvidos à força nas guerras.

Nós nos dirigimos a vocês porque acabamos de realizar o primeiro Encontro Internacional de Jovens pela Revolução em São Paulo (Brasil) em 29, 30 e 31 de dezembro de 2000.

149 delegados, vindos de 10 países, do Brasil, México, dos Estados Unidos, de Portugal, Espanha, França, Suíça, Inglaterra, Alemanha e Ucrânia, discutimos durante três dias e constatamos: é hora de combater este sistema mundial de exploração e de opressão que não mais nos permite viver! É hora de combater pela revolução!

Ouçam o que dizem os "grandes deste mundo", os chefes de Estado e de Governo, os representantes das grandes instituições financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial, ONU, OMC, União Européia...).


Mesmo em seus discursos, eles não podem mais esconder que esse sistema, que o "seu" sistema está falido.

"No relatório de acompanhamento que foi estabelecido pela reunião de abril de 2000 do comitê de desenvolvimento do Banco Mundial (BIRD) e do FMI, os serviços das duas instituições indicaram que se a porcentagem da população mundial que vivia com menos de um dólar por dia tinha diminuído nos últimos anos, o número absoluto de seres humanos em situação de extrema pobreza permanece próximo de 1,2 bilhão em 1998". Esse relatório do ano 2000 do Banco Mundial precisa que 2,8 bilhões de pessoas - a metade da humanidade - vive com menos de dois dólares por dia. Mas quem é responsável por isso não é o próprio Banco Mundial que pilha os povos por meio da dívida?"

Já em 1997, o presidente do Banco Mundial, J. Wolfensohn declarava: "Em trinta anos as desigualdades serão ainda mais marcantes. Se a população aumentar 80 milhões de pessoas por ano serão 5 bilhões de indivíduos e não 3 que estarão arriscados a ter menos de 2 dólares por dia para viver (...) Os conflitos poderão ser mais numerosos, nós já vivemos em um mundo que conheceu, apenas durante o ano que se encerra, 26 guerras entre estados, que produziram 23 milhões de refugiados."

Mas quem é responsável por isso, senhores do Banco Mundial e do FMI? Quem, além de vocês, que pilham os povos? E mesmo Wolfensohn ousa dizer que é necessário "diminuir a dívida": "mas os devedores e os credores devem exercer vigilância para que a dívida que sobrar seja tolerável a longo prazo" diz ele! É tolerável sangrar países inteiros, reduzir os povos à miséria e a fome? Nós dizemos: NADA É MAIS INTOLERÁVEL.

O BIRD, em seu último relatório sobre a Aids reconhece que a epidemia já "reduziu a esperança de vida em mais de 10 anos em certos países da África". Mas quem é o responsável senão o FMI e o Banco Mundial, com seus "planos de ajuste estrutural" que obrigam a fechar hospitais, a privar a população da assistência mais elementar na África, na Ásia, na América, na Oceania e na Europa?

Eles reconhecem que seu sistema está falido e que eles são os responsáveis.

"É possível que os pobres estejam mal situados para tirar proveito das novas oportunidades oferecidas pelas reformas estruturais" declara com cinismo o boletim do BIRD de novembro de 2000. Nesse mesmo boletim, eles constatam o desenvolvimento gigantesco do escambo na ex-URSS e saúdam "as medidas anunciadas pelo presidente De La Rua" na Argentina. Dois meses mais tarde, a Argentina anunciou que estava falida.

Eles são responsáveis por essa falência, mas querem ir ainda mais longe, faltam-lhes ainda mais "reformas", "planos de ajuste estrutural", fechar mais hospitais, escolas, universidades, ainda mais pilhagem dos povos pelas multinacionais, seja na África, na Ásia, na América, na Oceania ou Europa.

A sorte que eles prometem a todos os povos é o martírio a que submetem os povos da África. É o que ousa declarar M. Camdessus, antigo diretor geral do FMI: "Eu o digo, do fundo da minha convicção, a África humanizará a globalização." Esse que ousa pronunciar estas palavras é responsável pelos "planos de ajuste estrutural" de pilhagem da África que conduziram este continente à deriva, provocando fome, massacres e guerras.

Eis a única coisa que eles tem a nos oferecer: "humanizar" esse sistema falido, "humanizar" a fome, a guerra, a super-exploração, "humanizar" o trabalho infantil, a destruição da educação pública.

São eles mesmos que dizem: doravante os planos do FMI e do Banco Mundial devem ser "a conclusão de um processo participativo o qual deverá conferir antecipadamente às autoridades e à população o sentimento de que essa política é obra sua." afim de "neutralizar a resistência dos grupos de pressão que se opõe as reformas e favorecer à aplicação dessas políticas " (relatório do BIRD 2000).

Eles nos querem fazer crer que as "reformas" são de nosso interesse e, portanto, nós deveríamos contribuir para sua elaboração junto a eles. E que de todo modo não temos escolha e não podemos nos opor. Eis a bela "democracia" : nós temos o "direito" de ser a favor ... senão eles tratarão de nos "neutralizar".

Eis o que se esconde por trás das experiências "participativas" como o "orçamento participativo" de Porto Alegre (Brasil) : fazer com que os jovens, os trabalhadores, o povo acredite que são soberanos, quando na realidade estão fazendo-os elaborar os planos de sua própria destruição! Como aconteceu recentemente no caso da greve dos professores da rede pública no Rio Grande do Sul, onde o governo do Estado convidou os grevistas a ir reclamar o aumento no quadro do "Orçamento Participativo', opondo as suas reivindicações a de outros setores da população... Mas, ao mesmo tempo, o governo estadual retirava 800 milhões de reais do orçamento para pagar a dívida como exigia o governo federal de Fernando Henrique Cardoso.

Eis o que está jogo quando o Banco Mundial financia mais da metade das ONG's (Organizações Não Governamentais) e orquestra, com essas ONG's e a chamada "Sociedade Civil", o "ano internacional do voluntariado" procurando atrair os jovens para um trabalho sem salário, sem direitos, sem perspectivas, e que tem como conseqüência substituir as obrigações dos Estados com os serviços públicos.

Nós, reunidos no Encontro Internacional de jovens pela Revolução, em São Paulo, dizemos: não há nada a "humanizar", nada a acompanhar, nada a melhorar nesse sistema: é necessário derrubá-lo.

Não há nada a humanizar nesse sistema onde 250 milhões de crianças trabalham em todos os países, inclusive nos EUA e na União Européia.

Nada a humanizar nesse sistema onde mesmo nos EUA, centenas de milhares de prisioneiros trabalham por alguns centavos por hora.

Nada a humanizar nesse sistema assassino que, em nome do lucro, sacrifica a vida dos trabalhadores: 50 operários, dos quais 40 mulheres e 10 com menos de 12 anos, queimados vivos dentro de uma fábrica da Chowdhury Knit Factory em Bangladesh em 25/11/2000; 183 operários queimados vivos dentro de uma fábrica de brinquedos em Shenzen, na China, alguns dias antes.

Nada a humanizar quando em São Paulo, 2 milhões de jovens e trabalhadores vivem em favelas, em condições as mais assustadoras! Nada a humanizar quando, como disse um jovem negro da Baixada Fluminense "Não é exagero dizer que o primeiro emprego que é oferecido aos jovens de meu bairro é o trafico de drogas"

Nada a humanizar nesse sistema onde os conflitos armados são alimentados pelas grandes potências em todos os continentes, onde o comércio de armas ocupa o primeiro lugar no comércio mundial, onde os embargos econômicos matam de fome e dizimam os povos no Iraque e em Cuba, onde todos direitos e conquistas sociais, arrancados por nossos pais e avós devem desaparecer, onde a droga é utilizada como uma arma para esmagar nossa revolta.

É necessário derrubar este sistema, baseado na propriedade privada dos grandes meios de produção.

Eis porque nós chamamos a todos, jovens do mundo inteiro, a juntar-se a nós e a construir conosco o:

COMITÊ DE LIGAÇÃO DE JOVENS E ORGANIZAÇÕES DE JOVENS PELA INTERNACIONAL REVOLUCIONÁRIA DA JUVENTUDE

O que acontece neste momento na Palestina é o movimento pela revolução.

A mensagem que nos enviou um estudante palestino é clara: "é para não viver amontoados, sem água nem eletricidade, oprimidos, maltratados, sem nenhum dos direitos mais elementares que deveriam ser garantidos a cada povo, que se insurge a juventude e o povo Palestino."

Apesar dos massacres e da repressão, apesar das torturas e da morte, cada dia, novos jovens da intifada levantam-se para enfrentar um dos exércitos mais poderosos do mundo.

Nós afirmamos nossa solidariedade incondicional com a juventude e o povo da Palestina, em luta por seus direitos.

É direito imprescritível de todos os povos se sublevar contra o mundo de exploração e de opressão.

Nos Estados Unidos mesmo, onde não se pode sobreviver a não ser acumulando dois ou três "bicos", onde os trabalhadores, os negros, os hispânicos são jogados nos guetos, onde a justiça dos ricos envia milhares de inocentes à cadeira elétrica, nós saudamos o militante negro, operário, Mumia Abul Jamal, condenado à morte há 18 anos por um crime que não cometeu.

Nós exigimos vida salva para Múmia Abu-Jamal! Que a administração Clinton tome, antes de 20 de janeiro, a decisão de intervir e impedir sua execução, sem o que ela será responsável por tudo que possa acontecer! De nossa parte, nós respondemos ao apelo do Comitê Internacional por "Salvar a Vida de Mumia Abu Jamal" para mobilizar em massa em cada país para salvar Mumia Abu Jamal!

JOVENS DO MUNDO INTEIRO!

O que nos falta? Certamente não a vontade de combater, como nós vimos nas greves de estudantes do México, do Brasil, da Argélia, Grã-Bretanha e Espanha contra as privatizações. Como nós vimos, mesmo nas condições as mais difíceis na Rússia e na Ucrânia ou nas favelas do Brasil.

Aqueles que acham que os jovens não querem combater são aqueles que querem mascarar sua própria submissão a esse sistema falido. É o governo da "esquerda plural" na França que restabeleceu o trabalho de crianças aos 13 anos. É o governo da "esquerda " de Tony Blair, na Grã-Bretanha, que pilha as bolsas universitárias em proveito dos bancos. No Brasil, onde o governo FHC, a mando do FMI, aplica a política de ajuste estrutural, o governo "de esquerda" de Porto Alegre administra, por traz do "orçamento participativo', um orçamento municipal já amputado pela dívida.

Neste momento, quando o capitalismo destrói os direitos dos jovens, defendemos todas as reivindicações como legítimas.

Nós dizemos, o que falta aos jovens é o instrumento necessário para por abaixo esse mundo de guerras e de exploração, de racismo, de drogas, de opressão, e de mentira.

É por isso que nós fazemos um chamado a todos:

JUNTE-SE COMITÊ DE LIGAÇÃO DE JOVENS E ORGANIZAÇÕES DE JOVENS PELA INTERNACIONAL REVOLUCIONÁRIA DA JUVENTUDE

Em cada país e em todos os países, vamos nos reencontrar no mesmo dia em reuniões e manifestações, em assembléias na JORNADA INTERNACIONAL DE LUTA DA JUVENTUDE:

• Salvar a Vida de Mumia Abu-Jamal! Abertura imediata de uma investigação federal sobre seu processo fraudulento!
• Abaixo o racismo, a divisão! Fim das brutalidades policiais! Direitos Iguais Para Todos!
• Reconquista do direito a educação pública e gratuita para todos! Não a privatização do ensino!
• Não a superexploração da juventude! Por um verdadeiro trabalho com um verdadeiro salário!
• Abaixo o trabalho infantil: proibição!
• Defesa do movimento dos agricultores sem terra!
• Fim imediato do pagamento da dívida que estrangula os povos! Fora o FMI e o Banco Mundial!
• Abaixo as guerras imperialistas! Não ao "Plano Colômbia" !
• Não a intervenção imperialista na Amazônia !
• Fim dos embargos contra o Iraque e Cuba !
• Solidariedade incondicional com os jovens e o povo da Palestina em luta pelos seus direitos!
• O transporte, a escola, a saúde, são direitos que devem ser assegurados por serviços públicos gratuitos!
• Não a utilização da droga pelo imperialismo! Confisco dos bilhões de dólares do tráfico de drogas que beneficiam os bancos!

Nosso Encontro Internacional foi totalmente auto-financiado e portanto independente. Por isso, nós apelamos para que você junte-se a nós no Comitê de Ligação para prepararmos juntos a Jornada Internacional de Luta, sustentando financeiramente nossas atividades.

São Paulo - Brasil
29, 30 e 31 de dezembro de 2000

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